Leigos Missionários Combonianos

Recordar e contar a missão

P.-Mariano-Tibaldo Muitas vezes me perguntei – escreve o P. Mariano Tibaldo (na foto) – como é que a minha experiência missionária influiu sobre o meu modo de perceber os outros, sobre a minha relação com o mundo das coisas, sobre a minha relação com Deus e com o meu ser missionário. Por outras palavras, que percursos me conduziram a ser o que sou, em que modo os contactos com pessoas de diferente cultura e sensibilidade me mudaram, como é que a vida em comum com confrades marcados por experiências positivas mas também trágicas me transformaram, e como é que situações densas de significado e, por vezes, dramáticas, afinaram a minha sensibilidade missionária.

“Contar” a missão, então, não é simplesmente relatar factos e problemáticas missionárias (menos ainda expor “paradigmas missionários” que afagam a mente, porventura, mas não o coração). Contar a missão é “recordar” os acontecimentos fundantes que marcaram a vida (no sentido mais amplo do termo, como eventos-sinais de realidades-outras, onde se é acariciado pela mão invisível de Deus), e fazem parte da própria história e identidade; o contar, então, assume uma dimensão performativa porque, testemunhando uma mudança que diz respeito à mente, ao coração, à vontade, envolve outros no próprio percurso missionário. Contar a missão é, em síntese, testemunhar um encontro que misteriosamente emerge na história e que dá a direcção de marcha. A missão nasce do encontro com o amor de Deus. Di-lo o Papa Francisco na encíclica Evangelii Gaudium (EG): «Somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e da autorreferencialidade. Chegamos a ser plenamente humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro. Aqui está a fonte da ação evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de comunicar aos outros?» (n. 8).

Recordar os 150 anos do Instituto é, portanto, celebrar eventos constitutivos e fundantes, aquela «rocha da qual fomos escavados», que nos tornaram aquilo que somos e em que discernimos a amorosa mão de Deus, mas também fazer memória das pessoas que encarnaram os seus valores com paixão e na extrema doação de si. Destes eventos escolho três que, parece-me, têm um significado particular na nossa vida e, em particular, no nosso modo de viver a missão porque exprimem as constantes, as atitudes e as dimensões fundamentais das mesmas.

  1. A morte de Comboni como evento paradigmático da sua vida

Confesso que sempre me senti fascinado pela paixão visceral de Comboni por África, por aquele seu consumir-se por África, como a chama que lentamente consome a cera: como não recordar uma das últimas fotos de Comboni, já no fim da sua vida, com a barba grisalha e o rosto marcado pelos padecimentos? Mas sempre me senti fascinado também pela morte e pelo após-morte de Comboni, como eventos emblemáticos da sua vida. Comboni morria quando no horizonte se estavam a adensar as nuvens ameaçadoras da revolução do Mahdi que varreria as missões do Sudão. Alguns dias antes da sua morte, tinha escrito ao P. Sembianti uma carta que terminava com estas palavras: «Eu estou feliz com a cruz, que levada de boa vontade por amor de Deus gera o triunfo e a vida eterna». Palavras que, do ponto de vista puramente humano, pareciam contradizer a evidência, pelo menos no tocante ao “triunfo” da sua missão. Quem, como ele, podia compreender a enormidade da missão mas também a exiguidade das forças? Uma herança recolhida por Johan Dichtl, que assistiu Comboni nas últimas horas da sua vida, mas que era ainda demasiado jovem, assim parecia, para prosseguir aquela missão sobre-humana. Uma herança que parecia fechar-
-se tragicamente pouco tempo depois com o evento da Mahdia.

Comboni era sepultado no jardim da missão, ao lado da sepul-tura do pró-vigário apostólico, o jesuíta Massimiliano Ryllo. Depois da revolução, em 1901, o então vigário apostólico,
D. Roveggio, volta ao cemitério da missão de Cartum para exumar a urna. «[…] regressou-se ao jardim da missão de Cartum, – escreve Domenico Agasso na biografia sobre Comboni – às sepulturas do padre Ryllo e monsenhor Comboni. A primeira foi encontrada intacta. […]. De Daniele Comboni, ao contrário, naquela destruição, só alguns ossos misturados com a terra. […]. Poucos restos […]: o corpo do vigário apostólico ficou em grande parte lá, misturado com aquela terra. A doação total […] Comboni e a África, uma coisa só»[1]. Uma cena comovente, palavras que exprimem ainda mais a paixão visceral de Comboni, do qual não só a vida mas também a morte parece pertencer à África. Um evento, parece-me, altamente simbólico: o corpo de Comboni, «misturado com aquela terra» parece quase fecundá-la. Uma pertença, a sua, para além da morte. Mas, para lá da perturbação emotiva, o ponto de vista humano induzir-nos-ia a pensar que o grande sonho de Comboni se tivesse desfeito num insucesso – como outras experiências antes dele.

Parecem-me, então, iluminadas as palavras do Papa Francisco que, na Evangelii Gaudium, formula um princípio fundamental na construção de uma nova sociedade: o tempo é superior ao espaço. «Dar prioridade ao tempo é ocupar-se mais com iniciar processos do que possuir espaços. O tempo ordena os espaços, ilumina-os e transforma-os em elos de uma cadeia em constante crescimento, sem marcha-atrás. Trata-se de privilegiar as ações que geram novos dinamismos na sociedade e comprometem outras pessoas e grupos que os devolverão até frutificarem em acontecimentos históricos importantes. Sem ansiedade, mas com convicções claras e tenazes». E ainda: «Este critério é muito apropriado também para a evangelização, que exige ter presente o horizonte, adotar os processos possíveis e a estrada longa» (n. 223 e 225).

A vida e a morte de Comboni como uma acção generativa de um processo de mudança através de pessoas que, porquanto numericamente poucas, continuam o seu sonho. Portanto, um critério de método missionário e de animação missionária é o de pôr em curso acções generativas que, porquanto aparentemente insignificantes, activam um movimento de transformação, associando-lhe pessoas que se tornem, elas mesmas, instrumentos de mudança. Os exemplos, na nossa história, não faltam. Aludo brevemente ao Ir. Michele Sergi e ao seu “club” em Cartum, um ponto de encontro e de formação para os jovens, uma realização sem grandes pretensões, mas muitos daqueles que aí foram formados tornaram-se pioneiros da evangelização nas zonas do Sudão do Sul aonde os missionários ainda não tinham chegado.

  1. P.-Mariano-TibaldoDepois da revolução do Mahdi

O vendaval da revolução do Mahdi, logo depois da morte prematura de Comboni, abateu-se sobre as nossas missões. A missão da África Central é arrasada, os missionários e as missionárias fogem para o Egipto ou são feitos prisioneiros. Para estes últimos iniciará o calvário da prisão e das humilhações.

Após cerca de vinte anos, os missionários voltam a Cartum e começam a marcha em direcção ao sul para fundar novas missões; sem pontos de referência, sem experiências, sem, até, um manual missionário. O P. Antonio Vignato, pensando nas suas primeiras experiências no Sudão, enquadra a situação: «Um terrível atraso da nossa organização catequética deve-se atribuir também à inexperiência de como organizar a missão; nenhum de nós tinha observado no lugar o trabalho dos outros missionários e pouquíssimo se tinha lido sobre a experiência de outros.
A nossa única experiência tinha-nos sido dada pela colónia antiescravagista de Gesirah […] e pelas escolas de Helouan, Suakim e similares»[2]
. É preciso recomeçar do princípio e refundar o sonho de Comboni, não obstante as dificuldades ingentes e os obstáculos colocados no caminho.

Perder tudo e recomeçar do princípio, refundar o sonho de Comboni – ou mantê-lo vivo nas tragédias em que muitos de nós se encontraram – é uma constante que nos acompanhou desde o início. É como se o Senhor nos tivesse conduzido, através destas e outras experiências dolorosas, à essencialidade da missão. Recordo as destruições da guerra no Uganda, quando era ainda escolástico; missões destruídas: Maracha, Koboko e outras; recordo a missão de Otumbari, deixada pelos missionários por ordem do bispo porque em zona de guerrilha, a dor do P. Bernardo Sartori à ordem de evacuar a missão, apesar de não estar convicto disso, e o seu baixar a cabeça em obediência. Tenho presente também aqueles muitos confrades que permanecem com a gente não obstante as guerras e as violências, por vezes seguindo-a como refugiados. Recomeçar do princípio, teimosamente, manter vivo o sonho de Comboni, que é no fim de contas o de Jesus, ou refundá-lo quando tudo parece perdido, passando através de um doloroso processo de kenose, que é participação na kenose de Jesus, onde todo um trabalho de anos é destruído e anulado; é todavia uma experiência que se pode tornar, através de um processo de discernimento guiado pelo Espírito, kairòs, momento favorável de crescimento e de mudança.

Eis então um apelo a voltar ao essencial através do anulamento de certezas efémeras e de planos e métodos bem engendrados, se fruto apenas de «vanglória». «Quantas vezes sonhamos planos apostólicos expansionistas, meticulosos e bem traçados, típicos de generais derrotados! – recorda-nos o Papa – Assim, negamos a nossa história de Igreja, que é gloriosa por ser história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida gasta no serviço, de constância no trabalho fatigante, porque todo o trabalho é “suor do rosto”» (EG n. 96). Então também a tragédia, as derrotas, a perda, o anulamento das nossas certezas mundanas se tornam apelo à conversão, se transformam em eventos fundantes para voltar às raízes da nossa identidade e da missão.

Em poucos traços a Evangelii Gaudium projecta as dimensões de uma comunidade “em saída” e em que consista a essencialidade da missão. O Papa Francisco fala de tomar a iniciativa, procurar os distantes, ir às encruzilhadas dos caminhos e convidar os excluídos: é ir em direcção aos “mais pobres e abandonados” da nossa tradição; a fórmula ad gentes, nesta perspectiva, conserva ainda a sua validade. Mas Francisco fala também de uma comunidade que se envolve e sabe «assumir a vida humana tocando a carne sofredora de Cristo no povo», eco daquele “fazer causa comum com a gente” que é parte da metodologia comboniana de evangelização; missão é tocar a carne sofredora do irmão – “carne entendida nas suas várias dimensões: humanas, sociais e culturais – e convite a não «permanecer na pura ideia e degenerar em intimismos e gnosticismos que não dão fruto», mas a pôr em acção «o critério da realidade, de uma Palavra já encarnada e sempre procurando encarnar-se» segundo o critério de que «a realidade é superior à ideia» (EG n. 233). Francisco acrescenta outras dimensões missionárias: aquela de acompanhar «a humanidade em todos os seus processos, por mais duros e demorados que sejam»; acompanhar é um percurso que «conhece as longas esperas e a fadiga apostólica. A evangelização patenteia muita paciência, e evita deter-se a considerar as limitações». “Salvar a África com a África não sublinha porventura o processo de fazer-se companheiros discretos para que a gente seja protagonista do seu destino? E, por fim, os critérios de frutificar e festejar para «fazer com que a Palavra se encarne numa situação concreta e dê frutos de vida nova» e «possa celebrar e festejar cada pequena vitória, cada passo em frente na evangelização» (EG m. 24).

Voltar à essencialidade da missão é redescobrir a comunidade como sujeito que evangeliza, que toma a iniciativa, se envolve, acompanha, frutifica e festeja porque, nas palavras da Encíclica, a comunidade «é uma intimidade itinerante, e a comunhão “reveste essencialmente a forma de comunhão missionária”» animada pelo Espírito de Jesus (EG n. 23). A comunidade, acrescento, é aquela intimidade itinerante que, enquanto evangeliza, é evangelizada, enquanto ensina, aprende, enquanto é sujeito de missão torna-se o seu objecto, num mútuo enriquecimento de dar e receber (DC ’15 n. 3, 26).

  1. Divisão e reconciliação

Recordar, ainda que em linhas gerais, os eventos que levaram à divisão e, depois, à reunião do Instituto parece-me que tenha uma consequência não apenas sobre como vemos a nossa comum pertença mas também sobre o modo como vivemos a missão.

A divisão do Instituto, sancionada em 1923, foi uma «profunda ferida», escreve o P. Romeo Ballan no suplemento da Família Comboniana, Abril de 2017, citando os comentários dos padres F. Pierli e T. Agostoni. Uma divisão cujas razões pareciam ter mais peso que as motivações para permanecer unidos: diversa formação, diverso método missionário, acesos nacionalismos, e tudo condimentado com uma absoluta falta de diálogo no vértice a quem se imputava, assim se escrevia no Bolletino de 1972, «a separação em dois do único corpo fundado por Comboni»[3]. Uma divisão vivida com sofrimento por muitos combonianos, abertos de coração e de mente: «A separação nunca foi sem lamentos – insistia o mesmo artigo – aliás, em alguns foi um caso de consciência»[4].

Mas, o anseio em relação à reunião nunca foi amortecido porque «o corpo comboniano permaneceu fiel à sua vocação: por isso a inquietação fecunda semeadouros de Comboni»[5]. Inquietação que faz ultrapassar as recíprocas cautelas e os preconceitos quando a consciência da comum pertença a Comboni como figura de fundação e a conscientização da missão como razão de ser do «único Instituto Comboniano “nascido em missão”»[6] se reforçam e se tornam as razões generativas de um novo movimento: então as inquietações tornam-se práxis, história concreta feita de diálogos informais, pesquisas de estudo, colaboração nas missões, concretas realizações para uma formação comum em Espanha, trabalho de pessoas que acreditaram na reunião como os padres Riedl e Farè, história de deliberações dos Capítulos Gerais dos dois Institutos, de actividades da Reunion Study Commission, até ao Capítulo de 1979 que sancionou formalmente a reunião. Mas a reunião, que é simplesmente um facto formal e jurídico, foi precedida por diálogo sincero, aceitação recíproca e, diria, honesto reconhecimento dos próprios preconceitos na conscientização de raízes identitárias comuns como ponto firme para reconstruir a unidade. Considero este anseio pela reunião e o processo que o pôs em movimento eventos fundantes da nossa identidade, sobretudo hoje em que o Instituto está a assumir uma marcada dimensão multicultural: somos um Instituto fundado sobre a reconciliação e sobre o acolhimento recíprocos e cuja missão é criar comunidades reconciliadas: o perdão, o diálogo, a reconciliação, o acolhimento do outro fazem parte da nossa identidade missionária.

Julgo por isso pertinentes as palavras da Evangelii Gaudium sobre as modalidades de situar-se perante os inevitáveis conflitos que podem surgir na comunidade. O conflito, afirma o Papa, não se disfarça, não se deixa de ser prisioneiros dele lançando sobre os outros as próprias «confusões e insatisfações», mas deve ser aceite, resolvido, transformado «como elo de ligação de um novo processo» (EG n. 227). «Deste modo, prossegue o Papa, torna-se possível desenvolver uma comunidade nas diferenças, que pode ser facilitada só por pessoas magnânimas que têm a coragem de ultrapassar a superfície conflitual e consideram os outros na sua dignidade mais profunda. Por isso, é necessário postular um princípio que é indispensável para construir a amizade social: a unidade é superior ao conflito» (EG n. 228). Em síntese, o conflito deve ser enfrentado na aceitação incondicional do outro e no horizonte da própria identidade carismática e missionária; deste modo as diferenças, ocasiões de conflito, são, em vez disso, transformadas em potencialidades a favor da missão. É a partir destes conflitos aceites, resolvidos, transformados que se avança no caminho da construção de comunidades interculturais e a própria comunidade se torna sinal e instrumento de reconciliação e de diálogo.

P.-Mariano-Tibaldo

  1. Para concluir: alguns nós problemáticos

Gostaria de aludir a algumas questões que me parecem importantes neste primeiro quarto do século xxi e faço-o sem ter a pretensão de soluções mas como propostas para uma reflexão ulterior.

Escrevia mais acima acerca de um Instituto, onde confrades portadores de novas culturas provenientes do Sul Global (uma qualificação que tomo por empréstimo de alguns sociólogos) estão a entrar no Instituto ocupando aí também espaços de gestão.

O Instituto está a mudar não só numericamente, com a chegada destes confrades, mas também porque eles trazem novos modos de pensar a vida religiosa, a comunidade e a missão, herança de um diferente ambiente cultural. O diálogo, que se alimenta da escuta em profundidade das razões do outro, é ainda mais necessário agora, no momento em que se estão a patentear estas diferenças culturais e que algumas soluções para questões que pareciam comummente aceites são postas em causa.

Refiro-me de modo particular à problemática das comunidades de inserção radical que, segundo um entendimento e uma práxis comum, subentendem o viver pobremente, a nível dos pobres e em estruturas pobres. Pergunto-me se confrades de outras culturas, que não sejam as do mundo ocidental, tenham um outro modo de entender a pobreza, de viver como pobres com os pobres e, em geral, uma sensibilidade diferente face à pobreza “radical”. Não tenho soluções para este tema, limito-me a pôr a questão considerando, todavia, que o dever de escutar-nos, sobretudo de escutar tanto as mensagens verbais como as não-verbais, nos ajude na construção de uma comunhão das diferenças, primeiro passo em direcção à concretização de comunidades interculturais.

Um segundo problema concerne a provisoriedade dos empenhos e, em particular, o que está ligado à responsabilidade de deixar um empenho (refiro-me sobretudo às paróquias) uma vez que este tenha atingido um certo grau de auto-suficiência económica, ministerial e missionária (RV n. 70). Acrescento, como digressão mas sem veia polémica, que também empenhos não auto-suficientes e que ainda precisavam da nossa presença foram entregues ao Bispo em virtude da impossibilidade de os levar em frente, dada a escassez de pessoal. Os ideais da Regra de Vida contrastam muitas vezes com os limites da história. O problema de entregar paróquias auto-suficientes, sobretudo florescentes do ponto de vista económico, põe-se agora que confrades de pertença radical de uma Circunscrição considerada “de missão” estão a aumentar e, justamente, estão a ocupar a gestão.
A autonomia das Circunscrições, quanto à subsistência económica dos confrades de pertença radical, é um problema sério a que muitas Circunscrições estão a procurar penosamente dar respostas. Nesta perspectiva e à luz das novas circunstâncias históricas, asserções e doutrinas que considerávamos já aceites deveriam ser revisitadas. Na minha passada experiência de provincial, recordo as dúvidas e as perplexidades dos confrades de pertença radical à decisão de entregar ao Bispo uma paróquia economicamente florescente.

Um terceiro nó problemático: a missão que se contextualiza e a implantação jurídica do Instituto dividido em Províncias e Delegações as quais, geralmente, seguem as fronteiras nacionais. Muitas “situações missionárias” como os povos pastoris da África do Oeste, os afro-descendentes, as populações indígenas da América Latina mas também as problemáticas associadas às periferias das grandes cidades, ultrapassam as fronteiras nacionais e circunscricionais. De facto, no Instituto fala-se de “empenhos continentais” em referência a tais contextos. Pergunto-me se a organização jurídica do Instituto, em linha com o critério do empenho missionário, não deva ser repensada e adaptada à nova realidade. Isto é, se uma divisão jurídica não deva seguir uma organização baseada sobre as “situações missionárias” mais do que sobre as fronteiras administrativas de uma nação. Isto não é um problema novo: de facto, foi uma questão que surgiu no Capítulo Geral de 2009, mas sem uma verdadeira solução de continuidade. É também verdade que, pelo que concerne o intercâmbio de pessoal entre Circunscrições, a Regra de Vida prevê uma certa flexibilidade (116 e 125), mas é igualmente verdade que remodelar uma Circunscrição (ou como se a queira qualificar) segundo uma “situação missionária” ajuda a criar homogeneidade e identidade na própria Circunscrição, a discernir as linhas comuns de pastoral e a facilitar, da parte do superior, o processo de aprofundamento dos empenhos assumidos.

Parece-me que estes três nós problemáticos (e outros mais que poderiam surgir) precisam de reflexão aprofundada, diálogo constante e discernimento sincero. «Continuar à escuta de Deus, de Comboni e da humanidade, para colher e apontar na missão de hoje os sinais dos tempos e dos lugares» (DC ’15 n. 22) é uma tarefa à qual não podemos subtrair-nos.
P. Mariano Tibaldo, mccj

Perguntas para reflexão

  1. Recordando a minha história pessoal e/ou a da Circunscrição, quais são as experiências fundantes que marcaram a vida e em que entrevejo a presença de Deus? De que modo estes eventos me mudaram e/ou mudaram a vida da Circunscrição?
  2. Há acções generativas que puseram em movimento uma transformação da Circunscrição e/ou de uma situação social? Que mudanças trouxeram? Quais são as pessoas que as iniciaram? Quanto, da nossa acção missionária, é devida à “vanglória” de planos pessoais mais do que à preocupação de iniciar processos de mudança?
  3. Quais situações difíceis a nível pessoal e/ou da Circunscrição purificaram e tornaram credível o meu ser missionário e ajudaram a Circunscrição a reencontrar a essencialidade da missão?
  4. Quais são os conflitos e como os administro a nível comunitário e circunscricional?

[1] Domenico Agasso sr – Domenico Agasso jr, Un profeta per l’Africa. Daniele Comboni, Cinisello Balsamo (Milano), San Paolo, 2011, pp. 279-280.

[2] Antonio Vignato, Una pagina di storia catechetica africana, in «Combonianum», 8 (1944)2, p. 11-12. Roma, Archivio Centrale, l/A/l.

[3] Breve cronologia dei contatti tra Comboniani Italiani (FSCJ) e Tedeschi (MFSC), in «Bollettino» (1972)97, p. 58.

[4] Ibid. p. 58.

[5] Ibid. p. 58.

[6] Ibid. P. 59.

20 aniversario LMC do Brasil

LMC Brasil

É com imensa alegria que nós, LMC do Brasil celebramos neste ano, 20 anos da ALMC – Associação Leigos Missionários Combonianos, organização jurídica sem fins lucrativos fundada em 31 de maio de 1997.

Já no ano de 95, um grupo de pessoas vindas de todas as partes do Brasil começou a sonhar o projeto LMC em São José dos Campos/SP. Eram tempos do grande acontecimento missionário ocorrido no Brasil, o COMLA 5, que impulsionou a Igreja além fronteiras. A partir dai outros encontros aconteceram e em 1997 iniciava-se a primeira comunidade LMC de formação e convivência missionaria na cidade de Contagem/MG.

Passados 20 anos de existência da Associação Leigos Missionários Combonianos temos muitos motivos para celebrar á luz desta história de desafios, muita dedicação, ousadia e perseverança, a vivência do laicato missionário ao estilo de São Daniel Comboni. Seguimos nosso chamado ao seguimento de Jesus Cristo e estamos inseridos em frentes missionárias desafiadoras ao lado dos mais pobres e excluídos de nossa sociedade aqui e além das fronteiras.

No próximo mês de junho realizaremos a Assembleia Anual ALMC em Curitiba/PR, um momento precioso de comunhão e partilha do nosso chamado. Sendo que no dia 22 estaremos reunidos para a Missa de Ação de Graças pelos 20 anos da ALMC na Paróquia de Santa Amélia.

Queremos nos encontrar, refletir, avaliar, rezar, traçar novos planos e continuar o “sonho – desafio” da Igreja do Brasil toda missionária e aberta ao mundo.

Nestes últimos tempos vivemos sinais bonitos na nossa caminhada LMC no Brasil, como a formação dos grupos de Espiritualidade Comboniana e discernimento de Curitiba e mais recentemente o de Balsas; a nossa participação na equipe de Articulação da Família Comboniana, com as várias atividades pensadas em conjunto na animação missionária e vocacional; o reforço em breve da presença LMC em Açailândia – Piquiá junto ao Projeto Justiça nos Trilhos;  os matrimônios e vidas novas que chegaram a esta Família LMC; o testemunho especial de alguns membros nestes tempos difíceis de perda de entes queridos e na luta pela recuperação da saúde; enfim, o compromisso de cada um e cada uma nas várias frentes, perseverando na opção da defesa da vida.

Apresentam-se também desafios e questionamentos de como devemos continuar respondendo a nossa vocação nestes novos tempos. Quais aspectos são essenciais em nossa identidade? O que precisamos mudar? Como ser mais eficazes na animação missionária e na promoção de novas vocações? Recordando que a missão se renova com novos missionários, homens e mulheres dispostos a entrar na dinâmica da igreja em saída.

Contamos com as orações de todos e queremos estar unidos a toda a grande família comboniana espalhada pelos mundo.

À luz da nossa realidade, na graça da celebração dos 300 anos da Mãe Aparecida, inspirados por São Daniel Comboni no seguimento de Jesus Cristo e unidos a caminhada missionária da Igreja do Brasil e do mundo, disponhamo-nos a cuidar e fazer florescer cada dia o chamado missionário da vocação comboniana.

LMC BrasilCom carinho e amizade, Leigos e Leigas Missionários Combonianos do Brasil

 

Hino para o 150º aniversário da Fundação do Instituto Comboniano

LOGO 150 aniversario MCCJOs Missionários Combonianos do Sudão do Sul compuseram um hino para o 150° aniversário (1867-2017) da Fundação do Instituto Comboniano. “Trata-se de um simples gesto para esta celebração missionária comboniana que surge da nossa terra – disse o P. Guido Oliana, um dos principais promotores da iniciativa –. Gravamos o Hino com os nossos meios pobres. Talvez o resultado poderia ter sido melhor, mas tem um toque original e rústico, com um sabor próprio do Sudão do Sul. É cantado por um grupo de seminaristas do Seminário Maior de Juba e por uma irmã comboniana e uma sua amiga.”.

A seguir, publicamos o texto do Hino, em inglês; e a música.

WE ARE CALLED TO GO AND PREACH

We are called to go and preach the joy of the Gospel.
The pierced Heart of Jesus kindles us in love.
We are called to go and preach the joy of the Gospel.
The pierced Heart of Jesus kindles us in love.

1. We are moved by Saint Comboni’s spirit
to be a cenacle of prayerful apostles.
We are born from Jesus’ pierced heart,
and enkindled by his tender love,
and inspired by his divine Spirit,
to go and preach his Gospel of joy

2. We are called Comboni Missionaries
of the Heart of Jesus Christ the Lord.
This indeed is our inspiration,
and our pride, our cross, and our glory.
We are told to be holy and capable,
well prepared to give our life for Christ.

3. We are called to contemplate the cross
so as to know how God has loved the world.
We are moved to reach out to people
and proclaim the power of the Gospel
that frees people from any evil spirit
and empowers them as children of God.

Evolução histórica do Instituto dos Missionários Combonianos

LOGO 150 aniversario MCCJ“A vida de Daniel Comboni (1831-1881) – escreve P. Fidel González Fernández, missionário comboniano – tem uma clara unidade de fundo em que se entrecruzam os diversos aspectos. Mas nesta nota histórica queremos deter a nossa atenção sobre Comboni fundador de «institutos missionários», no contexto dos institutos missionários dependentes da Propaganda Fide. Comboni funda dois «institutos» missionários: um Seminário ou Instituto Missionário para as Missões Africanas (1867) e o Instituto das «Pias Madres da Nigrízia» (1872), que reentra na história dos «novos institutos» de vida consagrada que no século xix têm uma especial história inovadora. Na evolução histórica do Instituto dos Missionários Combonianos podem-se claramente individuar três fases.”

O INSTITUTO COMBONIANO PARA AS MISSÕES AFRICANAS NA SUA PRIMEIRA ETAPA «SECULAR»

(Primeira parte)

  1. A história da missão e dos institutos missionários sob a Propaganda Fide

A história da evangelização começa no próprio dia do Pentecostes e vai desenvolvendo progressivamente formas novas na história da Igreja[1]. Nos primeiros séculos o cristianismo difunde-se «de experiência em experiência» (Ratzinger) e somente a partir do século iv tomará formas missionárias progressivamente «organizadas». Na idade moderna a evangelização toma novas formas, modalidades e extensões. Encontramos, de facto, consagrados à obra da evangelização entre os povos não cristãos, ordens religiosas antigas e novos institutos que começam a ser chamados «institutos missionários ad gentes». O nome e o conceito de «instituto missionário» são relativamente modernos na história da Igreja, como também o termo «missão». Foram introduzidos depois da fundação da Propaganda Fide (1622), no sentido de enviados pelo Papa para qualquer parte do mundo (os jesuítas e mais tarde os lazaristas, Congregatio Missionum, 1625) para obras apostólicas entre católicos, a-católicos e não cristãos («a evangelização dos povos ou ad gentes»).

Joseph Ratzinger numa das últimas páginas do livro Jesus de Nazaré, onde fala da «vinda intermédia do Senhor» (entre Belém e a Glória definitiva), escreve que tal «vinda» adopta muitas modalidades, mas há algumas que «fazem época». Refere-se ao impacto de algumas figuras através das quais Cristo opera na história. O Espírito Santo, através destas figuras, suscita na Igreja movimentos que testemunham a beleza de ser cristãos em épocas em que o cansaço da fé se torna uma espécie de pandemia generalizada. Assim aconteceu na história missionária moderna. Reflectindo sobre a história missionária ad gentes da Igreja na época missionária inaugurada com a fundação da Propaganda Fide, podem-se assinalar numerosas figuras missionárias carismáticas que desenvolveram esta obra missionária ad gentes. Fundando a Congregação de Propaganda Fide, o Papa atribuiu-lhe a missão de constituir os ministérios necessários «para ensinar o Evangelho e a doutrina católica em todas as missões». Na impossibilidade de ter missionários próprios, a Congregação teve de recorrer às antigas ordens religiosas. E só depois de ter encontrado notáveis dificuldades neste apelo é que Propaganda Fide apoia o nascimento de novas instituições missionárias sob a sua jurisdição. Assim inicia a história dos Institutos missionários ad gentes.

A Propaganda Fide, por um lado, via as vantagens que as antigas ordens religiosas ofereciam às missões mas, por outro, reconhecia também os seus inconvenientes. Estes dois aspectos são sublinhados numa relação do secretário da Propaganda, Alberizi, de 4 de Novembro de 1657, onde se diz que uma «perversão dos fins por vezes faz com que os religiosos procurem antes a glória do seu instituto, persuadidos de que estão a trabalhar para a glória de Deus». Outros inconvenientes assinalados eram as lutas entre as diversas ordens religiosas, a pouca importância que davam à criação do clero indígena ou de não lhe atribuírem suficiente confiança, e a sua oposição à nomeação de bispos nas missões. A tendência era «perpetuarem-se» nos territórios através de um monopólio missionário sobre estes. Alberizi aludia também aos motivos da escassez de resultados na evangelização, bem como aos danos devidos ao monopólio de certas ordens, e ao controlo da actividade missionária por parte de entidades políticas às quais se encontravam muitas vezes ligados os próprios missionários. A relação concluía com uma alusão directa à fundação recente do Seminário das Missões Estrangeiras de Paris (MEP) e ao Colégio Urbano de Propaganda em Roma. Estava-se assim perante uma nova realidade na vida da Igreja: a dos institutos missionários «seculares»[2]. É aqui que, com o tempo, se inserirá a iniciativa de diversos missionários, entre os quais Daniel Comboni, de fundar seminários missionários ou institutos (a terminologia é ainda muito imprecisa e a figura jurídica de tais fundações atingirá somente em finais do século xix uma mais clara fisionomia). No século xix não se podiam fundar outras ordens religiosas segundo o modelo das antigas, porque não era permitido quer do ponto de vista canónico quer das legislações civis liberais da época. Com a Revolução Francesa estamos no início de uma nova etapa epocal também na história da Igreja e da vida consagrada apostólica. A história missionária da Igreja atravessava desde há tempos uma crise profunda e muitas instituições eclesiais estavam em clara decadência (algumas até desaparecem), mas surgem numerosas fundações apostólicas novas, ainda à procura de uma fisionomia jurídica própria.

A queda do Antigo Regime e a desarticulação da antiga sociedade dos «estados sociais», seguidos da instauração da nova sociedade liberal das «classes» sociais e das unidades políticas nacionais subvertem a velha ordem cultural, social e política e, com eles, também a eclesiástica. Nesta sociedade dominada pelo liberalismo, na Igreja muitas velhas estruturas eclesiásticas definham ou são até completamente subvertidas pela ideologia dominante. A vida das antigas ordens debate-se entre a possibilidade da extinção e, em alguns casos, da restauração. Não é preciso, porém, apontar como único responsável deste estado de coisas o Estado liberal. Muitas ordens encontravam-se desde há tempos numa situação de decadência interna. A Santa Sé procedia – muitas vezes a custo – a uma sua restauração emanando leis e normas ineficazes. Daquelas ordens religiosas antigas, poucas sobrevivem: são as que redescobrem de novo a força do seu carisma com um regresso à primitiva instituti inspiratio. Nascem não obstante novas realidades eclesiais, que se manifestam também na história missionária.

  1. Contexto do novo movimento missionário

No campo da actividade missionária da Igreja, é preciso aperceber-se do estado desastroso da actividade missionária ad gentes ao tempo da Revolução Francesa. Depois da supressão dos jesuítas (1773), o abandono obrigado das suas missões tinha constituído uma verdadeira catástrofe para a actividade missionária. O historiador das missões, Joseph Schmidlin, faz notar que no início de 1800 os missionários presentes em todo o mundo não católico não ultrapassavam os 300 (incluindo os que trabalhavam nos países protestantes). Símbolo de tal decadência foi a supressão do Dicastério da Propaganda Fide pelo Directório francês (15 de Março de 1798) que o define como «établissement fort inutile». Napoleão permitiu a sua existência, mas para o pôr ao serviço dos seus interesses. Esta mentalidade será predominante em todas as potências coloniais do século xix e do século xx. A vida do Dicastério, não obstante a sua reorganização por obra de Pio VII em 1817, definha até ao tempo de Gregório XVI. Será a partir destes anos atormentados que se terá um lento despertar da dimensão missionária ad gentes em alguns círculos minoritários.

Neste despertar missionário é preciso assinalar um movimento generalizado de renovamento cristão perante a mentalidade da cultura iluminista, primeiro, e da liberal-positivista, depois. Alguns vêem a urgência da actividade missionária como imperativo da «Caritas Cordis Christi». É nesta perspectiva que se há-de ver o nascimento das obras a favor das missões. Entre os mais conhecidos protagonistas do movimento missionário podemos recordar o Instituto das Missões Estrangeiras de Paris e os fundadores de «institutos seculares» missionários.

  1. As diversas fases da evolução histórica do Instituto comboniano

No movimento missionário do século xix, uma parte específica dele dirige a sua atenção aos povos negros da África. Neste movimento missionário colocam-se a atormentada história da Missão da África Central e a actividade fundacional de Comboni. Nesta história, o jovem missionário Daniel Comboni foi ocupando um lugar sempre mais significativo. O seu percurso formativo ajudou-o no seu amadurecimento apostólico. A sua vocação definitiva a favor da evangelização daqueles povos de cor e a génese da sua vocação como fundador de um seminário missionário para as Missões Africanas, que atingiu o momento carismático mais significativo com a proposta do «Plano para a regeneração da África» (1864), foi já amplamente estudado pela historiografia recente[3].

A vida de Daniel Comboni (1831-1881) tem uma clara unidade de fundo em que se entrecruzam os diversos aspectos. Mas nesta nota histórica queremos deter a nossa atenção sobre Comboni fundador de «institutos missionários», no contexto dos institutos missionários dependentes da Propaganda Fide. Comboni funda dois «institutos» missionários: um Seminário ou Instituto Missionário para as Missões Africanas (1867) e o Instituto das «Pias Madres da Nigrízia» (1872), que reentra na história dos «novos institutos» de vida consagrada que no século xix têm uma especial história inovadora[4].

Na evolução histórica do Instituto dos Missionários Combonianos podem-se claramente individuar três fases.

A primeira fase é aquela em que o instituto tem início como simples Seminário de Missões para a África e portanto com uma finalidade muito concreta – a evangelização – em sintonia com experiências similares já conhecidas na Igreja a partir do século xvii. Os membros eram sacerdotes seculares ou candidatos ao sacerdócio aos quais, desde os inícios, se juntaram alguns membros leigos. Dos documentos à nossa disposição não resulta que inicialmente houvesse algum vínculo de voto. Encontramos só um compromisso  com o qual o candidato às missões africanas prometia viver segundo a «finalidade» do Seminário sob os legítimos superiores e obtinha a «patente» de missionário apostólico, que a Propaganda Fide dava aos missionários que trabalhavam sob a sua dependência. Nesta fase é sublinhado o carácter de sacerdotes seculares dos seus membros. Estes permaneciam vinculados, de um modo ou de outro, à sua diocese de origem, a qual habitualmente os apresentava ou pelo menos os aconselhava para a actividade missionária.

A autoridade suprema do Instituto é «o Sumo Pontífice e a Congregação de Propaganda Fide… O Superior imediato é o Bispo de Verona o qual é representado por um Reitor escolhido ordinariamente entre os próprios Missionários, membros do Instituto Fundamental, já experimentado no exercício do Apostolado Africano». «O Bispo de Verona é coadjuvado nas suas funções por um corpo por ele presidido, composto pelos mais avisados e distintos eclesiásticos e seculares da sua diocese, o qual leva o título de Conselho Central da Obra para a Regeneração da Nigrízia»[5].

Em parte, estas Regras reflectem a dinâmica jurídica das do MEP, mas com importantes modificações que dizem respeito à autoridade, de facto fundamental, do bispo de Verona e do conselho por ele escolhido. O «Bispo de Verona erigiu canonicamente o dito seminário a pedido do sacerdote, missionário apostólico, Daniel Comboni» em 1867. O Seminário das Missões Africanas de Verona nasce assim e tal permanecerá, com uma existência mais precária, até ao fim de 1871[6].

A partir daquele ano delineia-se uma fisionomia mais precisa deste Seminário missionário para as Missões Africanas e, mais em concreto, para a Missão da África Central, um território muito vasto e de fronteiras ainda indefinidas. Comboni tinha já feito uma experiência de responsabilidade de uma obra missionária no Cairo, por ele fundada em 1868. Apercebe-se de que não é suficiente um Seminário para as Missões Africanas da África Central, sem uma estrutura jurídica mais especificamente determinada. Algumas dolorosas experiências daqueles anos ensinaram-lhe isso. A vida comum e a actividade missionária exigiam uma maior coesão entre os seus missionários e um empenho formal mais decidido.

Entramos assim numa segunda fase desta história. Comboni começa a escrever as Regras do seu Instituto e procura a sua aprovação por parte da Propaganda. É preciso anotar que com o termo Instituto não se indica o que na nossa linguagem actual ele veio a significar[7].

Nesta segunda fase vemos que aos membros do jovem Instituto se exige um vínculo canónico mais específico mas, sempre segundo as «Regras de 1871-1872, nunca aprovadas pela Propaganda Fide, falta ainda aquela precisão jurídica pedida até então às instituições eclesiásticas de direito público. Também a linguagem e as normas dadas, embora colhendo da terminologia da vida religiosa clássica termos como «noviciado» e outros, permanecem ainda imprecisos. Trata-se de «Regras» exortativas, juridicamente genéricas, e por isso nunca serão aprovadas. O período de preparação para a missão africana devia ser efectuado em Verona ou no Cairo. Não se emitiam votos
– ao que parece, nem sequer privados – mas existia o vínculo de um juramento de consagração «in perpetuo» à missão africana, obediência aos legítimos superiores com um vínculo de dependência do superior eclesiástico próprio. Fala-se explicitamente do Dicastério de Propaganda Fide e do Bispo de Verona, mas falta uma clara e precisa fisionomia jurídica. As Regras do Instituto apresentam sinais de radicalidade (consagram as suas obras e, se ocorre, também a vida…), mas também aqui não se precisa muito o seu conteúdo. No prefácio Comboni escreve:

«As Regras de um Instituto que deve formar Apóstolos para nações bárbaras e infiéis, para que sejam duradoiras, devem basear-se sobre princípios gerais…» e logo depois explica o motivo: «Se fossem muito reduzidas, bem depressa, ou a necessidade, ou um certo prazer de mudança minaria o fundamento do seu edifício, e poderiam resultar jugo áspero e peso grave para quem as tivesse de observar. Sendo demasiado variado e desmedido o campo, sobre o qual o candidato deve desenvolver a sua acção, não pode ser limitado a determinados ofícios como nas Ordens Religiosas; mas aqueles princípios gerais devem informar a sua mente e o seu coração de modo a saber-se orientar aplicando-os com precaução e bom-senso nos tempos, lugares e circunstâncias variadíssimas, em que o coloca a sua vocação. Para conseguir portanto o fim a que tende o novo Instituto das Missões para a Nigrízia, estabelecem-se somente aqueles princípios fundamentais, que constituem o seu verdadeiro carácter, e que servem aos alunos de norma para examinar com plena uniformidade e com aquela igualdade de espírito e de conduta exterior, que faz reconhecer os membros de uma só família»[8].

Neste período, os membros do Instituto são já definidos como «eclesiásticos e leigos» consagrados à Missão[9]. No texto das Regras de 1871 dizia-se que «O Instituto, ou seja Colégio das Missões para a Nigrizia, é uma reunião de Eclesiásticos e de irmãos Coadjutores os quais sem vínculo de votos… se dedicam à conversão da África»[10]. As «Regras e organização do Instituto das Missões para a Nigrízia em Verona» de 1872 são um texto reduzido e revisto, pelo próprio Comboni, das suas «Regras» de 1871[11]. O texto desta nova edição das «Regras» faz parte dos documentos inseridos no documento cardinalício da Propaganda de 1872 que determinou a nomeação de Comboni como provigário e a entrega da Missão da África Central ao Instituto por ele fundado em Verona e no Cairo. Diz-se que: «O Instituto para as Missões da Nigrízia é uma livre associação secular de Eclesiásticos e Leigos que consagram as suas obras e, se ocorre, também a vida pela conversão dos pobres Negros pagãos da África Central, sob a dependência dos legítimos superiores, e as normas destas Regras»[12].

De 1872 até à morte de Comboni a fisionomia do Instituto irá timidamente definindo-se melhor, seja na mente de Comboni seja na dos outros membros. Comboni procurava uma aprovação canónica definitiva por parte de Propaganda. Mas que tipo de associação tinha em mente? Que fisionomia jurídica queria? Não se tratava de uma congregação religiosa de votos simples no sentido moderno, nem tão-pouco – parece-nos – no sentido das congregações ou companhias já existentes e juridicamente aprovadas pela Igreja desde o século xv, como por exemplo os Padres da Missão e, mais tarde, congregações com vínculos de votos simples como os Redentoristas e os Passionistas. Tratava-se então de uma espécie de «sociedade apostólica» composta por sacerdotes e leigos consagrados à Missão como as MEP ou outras fundações similares?[13]. Dos documentos combonianos parece-nos que possa ser esta a tendência de Comboni. Mas a sua morte prematura mutila as coisas, sem clarificar juridicamente o tema. O desenvolvimento da fase seguinte já não pertence à acção de Comboni. Temos todavia de dizer que, embora não sendo religiosos na modalidade jurídica clássica, dos seus missionários Comboni exigirá aquela radicalidade de vida evangélica que é característica dos consagrados, aspecto, este, que encontramos também noutras sociedades apostólicas idênticas do tempo. Pensou, porventura, na transformação do seu instituto em congregação religiosa formal no sentido que assumirá mais tarde esta expressão? Os documentos que temos não ajudam muito a dar uma resposta segura, também porque o objecto da história são os factos ocorridos e não as intenções. Aquilo que ele certamente queria era pôr em acção uma companhia de missionários radicalmente consagrados a Cristo e à sua Igreja a favor da missão africana, com todas as características de uma vida consagrada, seguindo os passos de experiências similares já reconhecidas pela Igreja ou em vias de reconhecimento.

Talvez se possa dizer que de 1871 a 1881, ano da morte de Comboni, o Seminário ou Instituto Missionário Africano por ele fundado desenvolve-se formalmente na pesquisa jurídica de uma fisionomia própria como «Associação de Eclesiásticos e Leigos» consagrados à Missão, ligados com vínculos sólidos de pertença e estabilidade («consagração» primeiro ad decemnium, segundo as Regras redigidas por Comboni em 1872, mas que deixam aberta a porta à perpetuidade da consagração, e mais tarde já explicitamente «in perpetuo», como diz o juramento redigido por Comboni para os Irmãos Leigos). No seu desenvolvimento lógico, isto teria certamente levado à formação de uma societas estável de vida comum e apostólica. Cada semente tem o seu tempo de desenvolvimento e de crescimento. E aconteceu no caso comboniano, mesmo se a morte de Comboni fez desencadear uma outra fase, com problemáticas inteiramente particulares.
Fidel González Fernández, mccj

(Publicaremos a segunda parte deste artigo na Família Comboniana de Março)

[1] Cf. Fidel González, I movimenti nella storia della Chiesa dagli Apostoli ad oggi, Rizzoli, 2000.

[2] O termo «secular» desde o início do século xx compreende todas as formas de vida apostólica não consideradas juridicamente «religiosas» como os monges, os frades e similares. As «congregações» fundadas a partir do século  xvi são consideradas genericamente «seculres».

[3] Cf. Congregatio De Causis Sanctorum, Danielis Comboni. Positio super vitae et virtutibus… (daqui em diante citada como D.C. Positio), 2 voll. Romae 1988. São fundamentais os livros de P. Chiocchetta e A. Gilli: de F. González, Daniel Comboni, Profeta y Apostol de Africa, Mundo Negro, Madrid 1985; Idem, Comboni en el corazón de la Misión Africana. El Movimiento misionero y la Obra comboniana:1846-1910, Madrid 1993.

[4] O século xix eclesial católico caracteriza-se pelo protagonismo da mulher na vida eclesial com a fundação de numerosos «novos institutos» femininos (não dentro dos limites da vida monacal, mas também comparada aos «institutos seculares») que cobrem todos os campos da marginalização social e na actividade missionária. Estas novas fundações levarão a uma «revolução» no campo do direito das religiosas ou da vida consagrada.

[5] Regras de 1871, cap. II, in D. Comboni, Escritos, 2650-2652.

[6] Cf. Decreto diocesano del Vescovo di Verona, Magno sane perfundimur gaudio, in ACR, sez. A, c. 25/14 (kalendis Iunii [1 Giugno] an. 1867. Programma e Statuto dell’Opera del Buon Pastore, in ACR, sez. A, c. 25/14; Lettera Bonus Pastor del Vescovo di Verona ai Vescovi d’Italia (6 marzo 1868), in ACR, sez. A, c. 25/14; Decreto del Vescovo di Verona con l’erezione canonica del novello Istituto del 8.XII.1871, in ACR, sez. A, c. 25/20: in A. Gilli, L’Istituto Missionario Comboniano dalla fondazione alla morte di Daniele Comboni, pp. 359-378. Seguem-se outras cartas do Bispo a Pio IX e ao Card. Prefeito de P. F. e outros documentos relativos ao tema.

[7] Por «Instituto» entende-se uma entidade de direito público ou privado, constituído sobre a base de exigências organizativas e de objectivos determinados: eclesiástico (religioso, missionário), hospitaleiro, educativo, etc., instituto segundo precisas leis e normas para um determinado fim de público interesse. «Congregação» (de congregar, lit. «reunir em rebanho»), no mundo eclesiástico católico, é um grupo de pessoas reunido por motivos religiosos ou leigos. Na história da vida religiosa o termo teve diversos significados; um deles, depois do séc. xix, refere-se a «Instituto» de vida consagrada com vínculos de votos simples; mas não se trata de um termo unívoco.

[8] D. Comboni, Regole dell’Istituto delle Missioni per la Nigrizia. Texto de 1871, in P. Chiocchetta, Daniele Comboni: Carte per l’Evangelizzazione dell’Africa, EMI, Bologna 1978, pp. 250-251.

[9] Regole (1872), cap. I, 1, ibidem, p. 276.

[10] Regole (1871), cap. I, ibidem, p. 252.

[11] Cf. D. Comboni, Regole (1871), cap. I-II, in P. Chiocchetta, Daniele Comboni: Carte per l’evangelizzazione dell’Africa, pp. 249-275.

[12] Regole (1872), texto in P. Chiocchetta, Carte per l’evangelizzazione dell’Africa…, o.c., p. 276, e in A. Gilli, L’Istituto Missionario Comboniano dalla fondazione alla morte di Daniele Comboni, pp. 359-
-378.

[13] Nascidas, como já dissemos, depois de com a Revolução Francesa se ter dado o desaparecimento quase total da vida religiosa organizada.