Leigos Missionários Combonianos

Mensagem de Sua Santidade o Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões de 2020

Papa Francisco

«Eis-me aqui, envia-me» (Is 6, 8)

Papa Francisco

Queridos irmãos e irmãs!

Desejo manifestar a minha gratidão a Deus pelo empenho com que, em outubro passado, foi vivido o Mês Missionário Extraordinário em toda a Igreja. Estou convencido de que isso contribuiu para estimular a conversão missionária em muitas comunidades pela senda indicada no tema «Batizados e enviados: a Igreja de Cristo em missão no mundo».

Neste ano, marcado pelas tribulações e desafios causados pela pandemia do covid-19, este caminho missionário de toda a Igreja continua à luz da palavra que encontramos na narração da vocação do profeta Isaías: «Eis-me aqui, envia-me» (Is 6, 8). É a resposta, sempre nova, à pergunta do Senhor: «Quem enviarei?» (Ibid.). Esta chamada provém do coração de Deus, da sua misericórdia, que interpela quer a Igreja quer a humanidade na crise mundial atual. «À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas, ao mesmo tempo, importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados “vamos perecer” (cf. Mc 4, 38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos» (Francisco, Meditação na Praça de São Pedro, 27/III/2020). Estamos verdadeiramente assustados, desorientados e temerosos. O sofrimento e a morte fazem-nos experimentar a nossa fragilidade humana; mas, ao mesmo tempo, todos nos reconhecemos participantes dum forte desejo de vida e de libertação do mal. Neste contexto, a chamada à missão, o convite a sair de si mesmo por amor de Deus e do próximo aparece como oportunidade de partilha, serviço, intercessão. A missão que Deus confia a cada um faz passar do «eu» medroso e fechado ao «eu» resoluto e renovado pelo dom de si.

No sacrifício da cruz, onde se realiza a missão de Jesus (cf. Jo 19, 28-30), Deus revela que o seu amor é por todos e cada um (cf. Jo 19, 26-27). E pede-nos a nossa disponibilidade pessoal para ser enviados, porque Ele é Amor em perene movimento de missão, sempre em saída de Si mesmo para dar vida. Por amor dos homens, Deus Pai enviou o Filho Jesus (cf. Jo 3, 16). Jesus é o Missionário do Pai: a sua Pessoa e a sua obra são, inteiramente, obediência à vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; 6, 38; 8, 12-30; Heb 10, 5-10). Por sua vez, Jesus – crucificado e ressuscitado por nós –, no seu movimento de amor atrai-nos com o seu próprio Espírito, que anima a Igreja, torna-nos discípulos de Cristo e envia-nos em missão ao mundo e às nações.

«A missão, a “Igreja em saída” não é um programa, um intuito concretizável por um esforço de vontade. É Cristo que faz sair a Igreja de si mesma. Na missão de anunciar o Evangelho, moves-te porque o Espírito te impele e conduz (Francisco, Sem Ele nada podemos fazer, 2019, 16-17). Deus é sempre o primeiro a amar-nos e, com este amor, vem ao nosso encontro e chama-nos. A nossa vocação pessoal provém do facto de sermos filhos e filhas de Deus na Igreja, sua família, irmãos e irmãs naquela caridade que Jesus nos testemunhou. Mas, todos têm uma dignidade humana fundada na vocação divina a ser filhos de Deus, a tornar-se, no sacramento do Batismo e na liberdade da fé, aquilo que são desde sempre no coração de Deus.

Já o facto de ter recebido gratuitamente a vida constitui um convite implícito para entrar na dinâmica do dom de si mesmo: uma semente que, nos batizados, ganhará forma madura como resposta de amor no matrimónio e na virgindade pelo Reino de Deus. A vida humana nasce do amor de Deus, cresce no amor e tende para o amor. Ninguém está excluído do amor de Deus e, no santo sacrifício de seu Filho Jesus na cruz, Deus venceu o pecado e a morte (cf. Rom 8, 31-39). Para Deus, o mal – incluindo o próprio pecado – torna-se um desafio para amar, e amar cada vez mais (cf. Mt 5, 38-48; Lc 23, 33-34). Por isso, no Mistério Pascal, a misericórdia divina cura a ferida primordial da humanidade e derrama-se sobre o universo inteiro. A Igreja, sacramento universal do amor de Deus pelo mundo, prolonga na história a missão de Jesus e envia-nos por toda a parte para que, através do nosso testemunho da fé e do anúncio do Evangelho, Deus continue a manifestar o seu amor e possa tocar e transformar corações, mentes, corpos, sociedades e culturas em todo o tempo e lugar.

A missão é resposta, livre e consciente, à chamada de Deus. Mas esta chamada só a podemos sentir, quando vivemos numa relação pessoal de amor com Jesus vivo na sua Igreja. Perguntemo-nos: estamos prontos a acolher a presença do Espírito Santo na nossa vida, a ouvir a chamada à missão quer no caminho do matrimónio, quer no da virgindade consagrada ou do sacerdócio ordenado e, em todo o caso, na vida comum de todos os dias? Estamos dispostos a ser enviados para qualquer lugar a fim de testemunhar a nossa fé em Deus Pai misericordioso, proclamar o Evangelho da salvação de Jesus Cristo, partilhar a vida divina do Espírito Santo edificando a Igreja? Como Maria, a Mãe de Jesus, estamos prontos a permanecer sem reservas ao serviço da vontade de Deus (cf. Lc 1, 38)? Esta disponibilidade interior é muito importante para se conseguir responder a Deus: Eis-me aqui, Senhor, envia-me (cf. Is 6, 8). E isto respondido não em abstrato, mas no hoje da Igreja e da história.

A compreensão daquilo que Deus nos está a dizer nestes tempos de pandemia torna-se um desafio também para a missão da Igreja. Desafia-nos a doença, a tribulação, o medo, o isolamento. Interpela-nos a pobreza de quem morre sozinho, de quem está abandonado a si mesmo, de quem perde o emprego e o salário, de quem não tem abrigo e comida. Obrigados à distância física e a permanecer em casa, somos convidados a redescobrir que precisamos das relações sociais e também da relação comunitária com Deus. Longe de aumentar a desconfiança e a indiferença, esta condição deveria tornar-nos mais atentos à nossa maneira de nos relacionarmos com os outros. E a oração, na qual Deus toca e move o nosso coração, abre-nos às carências de amor, dignidade e liberdade dos nossos irmãos, bem como ao cuidado por toda a criação. A impossibilidade de nos reunirmos como Igreja para celebrar a Eucaristia fez-nos partilhar a condição de muitas comunidades cristãs que não podem celebrar a Missa todos os domingos. Neste contexto, é-nos dirigida novamente a pergunta de Deus – «quem enviarei?» – e aguarda, de nós, uma resposta generosa e convicta: «Eis-me aqui, envia-me» (Is 6, 8). Deus continua a procurar pessoas para enviar ao mundo e às nações, a fim de testemunhar o seu amor, a sua salvação do pecado e da morte, a sua libertação do mal (cf. Mt 9, 35-38; Lc 10, 1-11).

Celebrar o Dia Mundial das Missões significa também reiterar que a oração, a reflexão e a ajuda material das vossas ofertas são oportunidades para participar ativamente na missão de Jesus na sua Igreja. A caridade manifestada nas coletas das celebrações litúrgicas do terceiro domingo de outubro tem por objetivo sustentar o trabalho missionário, realizado em meu nome pelas Obras Missionárias Pontifícias, que acodem às necessidades espirituais e materiais dos povos e das Igrejas de todo o mundo para a salvação de todos.

A Santíssima Virgem Maria, Estrela da Evangelização e Consoladora dos Aflitos, discípula missionária do seu Filho Jesus, continue a amparar-nos e a interceder por nós.

Roma, em São João de Latrão, na Solenidade de Pentecostes, 31 de maio de 2020.

Francisco

Ministerialidade: uma aproximação a partir da riqueza semântica dos textos bíblicos

La Palabra
La Palabra

Nota introdutória

O presente texto pretende ser uma simples e breve contribuição para o processo de reflexão e partilha à volta do tema da ministerialidade, a partir dos textos bíblicos. Uma vez que o substantivo abstrato “ministerialidade” não ocorre nos textos sagrados, a nossa abordagem baseia-se na pluralidade semântica do termo ministro. Importa referir nesta nota introdutória que a nossa exposição não visa abarcar todos os termos bíblicos equivalentes a “ministro”, nem aprofundar os assim chamados ministérios bíblicos tais como, por exemplo, sacerdote, rei, profeta, apóstolos, evangelistas, pastores, doutores. Cingimo-nos, portanto, a abordar alguns elementos teológico-linguísticos associados aos termos, para depois partilharmos a título conclusivo uma breve reflexão e algumas perguntas para um eventual aprofundamento do tema.

  1. Visão geral dos termos bíblicos equivalentes a ministro
    1.  No Antigo Testamento
      1. MESHARET

A raiz deste termo hebraico designa qualquer serviço. No contexto do nosso tema, merece destaque o serviço de Josué a Moisés em Ex 24,13; 33,11, Nm 11,28 e Js 1,1. Nestes textos, MESHARET significa ministro, auxiliar directo, discípulo. De facto, Moisés levava Josué para os encontros com Deus na montanha e na tenda. O ministério de Josué consistia em ajudar Moisés a entender a mensagem de Deus, para depois transmiti-la ao povo. O que é mais interessante nestes textos bíblicos é que o ser ministro é uma fase preparatória para ser líder, ou seja, é um verdadeiro discipulado. Assim sendo, MESHARET remete ao tema da relação discípulo-mestre, do saber aprender para continuar uma missão ou um ministério. Desde este ponto de vista, o conceito de MESHARET transmite-nos a ideia de que, na relação discípulo-mestre, o discípulo aprende não apenas do mestre, mas também da realidade. Ou seja, a realidade também se torna mestra. Portanto, o ministro é, simultaneamente, discípulo do Senhor e da realidade.

  1. EBED

Outro termo usado no Antigo Testamento para designar ministro é EBED. Este termo descreve não só o serviço comum de qualquer pessoa subordinada a um patrão, como é o caso de Naaman (2 Rs 5, 6), mas também a subordinação aos planos divinos, como é caso do servo de Deus (EBED ADONAI ou EBED HAELOHIM) em Is 42,1-4; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-15; 53,1-12. Embora não haja consenso entre os estudiosos sobre a identidade histórica do EBED ADONAI, os textos mostram claramente que a subordinação aos planos de Deus é condição para a realização da missão recebida.

  1.  No Novo Testamento

No que se refere ao Novo Testamento (NT), merecem especial destaque os seguintes termos:

  1.  PAIS/DOULOS

Comummente, PAIS significa criança. Em Mt 12,18, porém, cita-se a versão grega de Is 42,1 em que o termo PAIS traduz o sentido hebraico de EBED (servo), para vincar que Jesus é o Servo de Deus. Com o mesmo intuito, no pórtico de Jerusalém, após o Pentecostes, Pedro declara, pela primeira vez, que Jesus é o Servo de Deus (Act 3,13). Na verdade, Pedro ficou tão marcado pela imagem de Jesus-servo que esta se tornou objecto de referência nas suas primeiras pregações, depois do Pentecostes. Desta forma, ele apresenta a imagem de Jesus-servo como paradigma de todo o tipo de serviço na Igreja nascente. Prova textual disso é a transposição semântica que o NT opera entre os termos PAIS (criança, servo) e DOULOS (escravo, servo). Prestemos atenção ao seguinte: Dirigindo-se aos apóstolos em Jo 15,15, Jesus qualifica a sua relação com eles como sendo uma relação de amizade e não de servidão ou escravidão. Apesar disso, o termo DOULOS (servo) vai continuar a caracterizar a missão dos discípulos. De facto, Jesus recomenda que as relações interpessoais sejam marcadas por atitudes e sentimentos de servo, e que estes sejam adoptados por todo aquele que quiser ser grande no Reino dos Céus (Mt 20,27; Mc 10,44). Deve-se notar, também, que DOULOS é o título com o qual Paulo se apresenta perante as suas comunidades (Rm 1,1; 2 Cor 4,5; Gl 1,10; Ef 6,6; Fl 1,1; Tt 1,1). Alguns cristãos são chamados servos (DOULOI) em Cl 4,12; 2 Tm 2,14; Tg 1,1. Pedro, Judas e toda a Igreja são servos (DOULOI) de Cristo segundo 2 Pe 1,1; Jd 1,1; Ap 1,1. Constata-se assim que os termos PAIS e DOULOS passam a ser sinónimos e Jesus-servo aparece como o único paradigma no exercício dos ministérios.

Deste termo, três significados merecem especial atenção:

  1. designa os servidores ou administradores públicos que são chamados servos de Deus porque desempenham com zelo o seu ofício (Rom 13,6). A eles o cristão deve ser submisso e por eles deve rezar para que tenham vida tranquila, pacífica, piedosa e honesta (2 Tm 2,2).
  • Aquele que anuncia o Evangelho de Jesus Cristo aos que O não conhecem, para que se torne uma oferta agradável a Ele, é também chamado LEITOURGOS (Rm 15,16).
  • O termo é também aplicado a Jesus para designar o seu ministério de mediador entre Deus e os homens (Hb 8,2). É ainda digno de nota o facto de o NT, através deste termo, equiparar o ministério do servidor público ao do evangelizador, porque ambos, inspirando-se em Jesus-mediador, servem o mesmo Deus. Conforme acabamos de observar, inspirar-se em Jesus-mediador significa assumir e desenvolver, dentro e fora da Igreja, a dimensão sacerdotal dos ministérios. De facto, todos os ministérios, sem excepção alguma, revestem-se de uma dimensão sacerdotal, a saber, a mediação entre o criador e a criação.
    • HYPĒRETES

No que diz respeito ao termo HYPĒRETES, destacamos apenas o significado de “ministro da Palavra” (Lc 1,2; Act 26,16). Nestes textos, a experiência de Cristo aparece como uma condição necessária para o exercício do ministério. Basta reparar que os “servidores da Palavra”, mencionados em Lc 1,2, são testemunhas oculares. Saulo, em Act 26,16, é constituído servo e testemunha do que acabava de ver e do que o Senhor ainda lhe haveria de mostrar. Assim, destes trechos emerge a ideia de que os ministérios nascem da experiência de Cristo e desta se nutrem.

  1. DIAKONOS

Este termo é amplamente usado no NT, mas em contextos e com significados diversos. Fundamentalmente, importa notar o seguinte: DIAKONOS é a pessoa que recebe a missão de servir a Igreja: Estêvão e os seus companheiros são-no por se ocuparem dos assuntos caritativos da comunidade (Act 6,1-6); Paulo e Apolo, embora trabalhem incansavelmente na evangelização, preferem ser tidos por meros diáconos (DIAKONOI) da Igreja (1 Cor 3,5-15); Tíquico (Ef 6,21), Epafras (Cl 1,7) e Timóteo (1 Ts 3,2) são DIAKONOI porque colaboram mais directamente na evangelização. Jesus Cristo é também DIAKONOS porque não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos (Mt 28,28, Mc 10,45; Rm 15,8). A assistência aos mais desfavorecidos é considerada não apenas uma DIAKONIA (ministério, serviço) mas condição necessária para tomar posse do Reino celestial (Mt 25,31-46). Merecem especial destaque os textos sobre a inferioridade do DIAKONOS: Lc 12,37 e 22,26-27. O DIAKONOS é inferior a Deus e ao povo que lhe é confiado. De facto, esta parece ter sido uma característica marcante dos ministérios nas primeiras comunidades cristãs.

  1. OIKONOMOS

OIKONOMOS é o administrador que cuida dos bens do seu senhor. É de notar que nas tradições paulina e petrina os apóstolos e todos os cristãos são denominados OIKONOMOI, porque administram os mistérios e as graças de Deus (1 Cor 4,1-2; 1 Pe 4,10). O simbolismo do administrador da casa é deveras sugestivo, porque aponta para o dever de todo o cristão ter um ministério. Assim, os ministérios são vistos como uma forma de administrar a OIKOS (a morada, a casa) de Deus (1 Cor 3,5-9).

Buon_Pastore
  • Reflexão

A riqueza semântica aqui referida não deve ser vista como uma mera sofisticação linguística dos autores bíblicos, mas sim como a prova evidente da diversidade de experiências de ministerialidade no povo de Israel e nas primeiras comunidades cristãs. Do mesmo modo, esta riqueza semântica serve-nos de fundamento e inspiração para a contínua contextualização dos ministérios.

  • Diversidade de experiências ministeriais

Pelo exposto, resta evidente que as várias experiências de ministerialidade relatadas nos textos sagrados interessam aos hagiógrafos para, através delas, apresentar um Deus que suscita ministérios para o serviço da Sua casa. Importa referir que no NT, casa de Deus (OIKOS TOU THEOU) designa, no sentido estrito do termo, a Igreja de Cristo (1 Tm 3,15; Hb 3,6), e no sentido mais amplo, todo o universo (Act 7,44-50). A complexidade existente nos conceitos aponta para a importância de aprofundar não apenas o significado da expressão “casa de Deus”, mas também os ministérios que se requerem para poder administrá-la integralmente. A casa de Deus é tão complexa que não é possível administrá-la sem a existência de uma ampla variedade de ministérios. Urge, portanto, estimular o surgimento de novos ministérios dentro e fora da Igreja. Neste sentido, os Combonianos estão chamados a animar este processo que, hoje, mais do que nunca, aparece como conditio sine qua non da evangelização do mundo contemporâneo.

  • Contextualização dos ministérios

As várias experiências de ministerialidade na Bíblia são acompanhadas de um processo de contextualização, isto é, de adaptação dos ministérios a um determinado contexto. Para os Combonianos, a contextualização comporta dois processos intrinsecamente interdependentes: o processo ad intra e o processo ad extra. Ad intra porque requer o repensar os ministérios ou compromissos missionários à luz da realidade interna do Instituto (número de confrades, formação académica, geografia vocacional, situação económica, etc.). Ad extra porque nos desafia a identificar, no contexto em que trabalhamos, pessoas, meios e métodos para, com eles e a partir deles, estimular o surgimento de novos ministérios ou actualizar os já existentes. É de notar que ambos os processos requerem realismo, coragem e optimismo. Importa ainda destacar que, no processo de contextualização dos ministérios, assumidos individualmente e como grupo, a leitura contextualizada da Sagrada Escritura joga um papel insubstituível. Por esse motivo, é imperativo reaprender a ler a Bíblia a partir do contexto do destinatário contemporâneo. Só assim será possível identificar acertadamente os ministérios mais apropriados para cada realidade.

3. Perguntas de aprofundamento

a) Em que consiste a “inferioridade do ministro” aplicada ao missionário comboniano?

b) Hoje, sentimos a necessidade de novos ministérios na Igreja e no Instituto? Quais?

c) A Casa de Deus é imensa e complexa. Como administrá-la, integralmente?

d) Temos sido capazes de contextualizar o carisma comboniano e os ministérios com ele relacionados?

e) Conseguimos contextualizar a nossa hermenêutica dos textos bíblicos, a fim de suscitar ministérios adequados à realidade? Que dificuldades temos encontrado?

Bibliografia recomendada

COLLINS, J.N. (2014). Diakonia Studies: Critical Issues in Ministry. Oxford: Oxford University Press.

COMISSÃO Teológica Internacional. (2002). Da Diaconia de Cristo à Diaconia dos Apóstolos.

GUIJARRO, S. (2017). La Aportación del Análisis Contextual a la Exégesis de los Textos Bíblicos. Cuestiones Teológicas, 44 (102), 283-300.

KING, N.  (2019). Ministry in the New Testament. New Blackfriars, 100 (1086), 155-164.

MĂCELARU, M.V. (2011). Discipleship in the Old Testament and Its Context: A Phenomenological Approach. Pleroma, 13 (2), 11-22.

P. José Joaquim L. Pedro, mccj
(Maputo – Moçambique)

Paróquia missionária e ministerial

P Fernando MCCJ

«A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária» (AG 2; cf. Mt 28, 16-20; Mc 16, 15-20), mas, por sua natureza, é também ministerial (cf. Rm 12, 4-8). Ministerialidade e missão estão profundamente unidas porque a missão concretiza-se e realiza-se através da diversidade de ministérios. Um ministério é um serviço pelo bem comum ou pelo desenvolvimento da missão da Igreja. Consequentemente, podemos dizer que a Igreja é missionária pois é substancialmente ministerial, servidora. No contexto do ano da ministerialidade que estamos a viver no Instituto, neste artigo, iremos deter-nos em particular sobre a questão ministerial e carismática da missão evangelizadora da Igreja na paróquia.

P Fernando MCCJ

À luz do Concílio Vaticano II sabemos que cada baptizado é chamado a ser evangelizador, uma vez que participa nas três funções de Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei, e partilha a sua missão (LG 30-38). Os ministérios podem ser classificados em dois grandes grupos: Ministérios Laicais e Ministérios da Ordem Sacerdotal. Se se parte de uma visão hierárquica da Igreja e de uma visão clerical da pastoral, os ministérios laicais são sufocados ou reduzidos a serviços e apoio ao sacerdote e à sua missão. Por conseguinte, os agentes pastorais tornam-se simples colaboradores, ajudantes, «meninos de coro do sacerdote» (altar boys) ou, como aconteceu em tantas missões, «mission boys», embora se tratasse de adultos. Há também sacerdotes que dedicam grande parte do seu tempo a actividades próprias dos Irmãos ou de outros ministérios laicais, deixando pouco tempo para os ministérios próprios do seu sacerdócio.

Uma outra prática difusa é a de dividir a paróquia em zonas pastorais, confiadas, cada uma, a um sacerdote. Cada um organiza e administra a própria zona, a própria pastoral, a própria equipa, os próprios projectos, a própria gente, a própria missão, o próprio dinheiro. Esta zona torna-se uma área da sua propriedade, onde os outros missionários não podem intervir e sobre a qual, por vezes, não podem sequer exprimir uma opinião. Cada um deve respeitar o território do outro. O XVIII Capítulo Geral e a Evangelii Gaudium do Papa Francisco exortam-nos a entrar num processo de conversão, para passar de modelos clericais e hierárquicos da missão e da pastoral a modelos baseados nos ministérios suscitados pelo Espírito Santo, a viver o espírito do Concílio Vaticano II. Em virtude do baptismo, todos somos iguais: discípulos de Jesus, mas com diversas vocações e dons (cf. LG 30). Utilizando a expressão criada pelos bispos latino-americanos em Aparecida e utilizada pelo Papa Francisco, afirmamos que somos todos discípulos de Jesus Cristo (cf. EG 119-121, 130-13; Aparecida 184-224).

É importante sublinhar que o baptizado é, antes de mais, um discípulo de Jesus Cristo e o encontro com Jesus transforma-o num missionário. Este Jesus que o fascinou, envia-o a evangelizar. «Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho» (EG 20). Todo o discípulo missionário deveria tornar sua a paixão de Paulo pela missão e exclamar: «Ai de mim, se eu não pregar o Evangelho!» (1Cor 9,16). Evangelizar não é só um dever, mas é sobretudo um direito de cada discípulo missionário de Jesus Cristo.

Hoje é fundamental crescer na pluralidade e diversidade ministerial. Os ministérios ordenados e laicais são dons do Espírito Santo, dados precisamente para que sejam complementares em ordem a um fim comum: «Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum» (1Cor 12, 4-7). A missão hoje requer modelos pastorais ministeriais. Uma paróquia missionária ministerial é dinâmica porque, mediante a escuta do Espírito Santo e a leitura dos sinais dos tempos, descobre, concebe, cria e desenvolve novos ministérios e estratégias pastorais.

Seguidamente, proponho dois esquemas pastorais baseados nos ministérios, já operantes em diversas partes do mundo.

Não menciono os ministérios ordenados porque são inerentes à vocação sacerdotal, mas enfatizo os ministérios leigos.

  • Em algumas Comunidades Eclesiais de Base. 1. Em relação à Palavra de Deus: animador bíblico para coordenar a reflexão bíblica nas pequenas comunidades. 2. Em relação à formação da comunidade: catequistas para a preparação para os sacramentos e para o acompanhamento mesmo depois do sacramento. 3. Em relação às celebrações litúrgicas: ministros para o acolhimento, cantores, leitores, ministros extraordinários da Comunhão. 4. Em relação à solidariedade social: formadores de consciência política e direitos humanos, ministério da caridade e solidariedade com os necessitados, ministério para a organização e mobilização comunitária.
  • Organização para pastorais. Algumas paróquias integram a diversidade de ministérios em três pastorais: Profética, Litúrgica, Social. 1. Pastoral profética: catequistas para a formação de base para os sacramentos, professores para dar uma formação contínua a todas as pessoas que exercem um ministério, coordenadores para acompanhar os vários grupos paroquiais, escola de pastoral e uma publicação periódica para a formação de todos os responsáveis e da comunidade paroquial. 2. Pastoral litúrgica: ministros para o acolhimento, coros, cantores, proclamadores da Palavra, acólitos, ministros extraordinários da Comunhão, coordenadores dos grupos da liturgia, actores para a representação do Evangelho nas missas das crianças. 3. Pastoral social: ministros da solidariedade e caridade, visitadores dos doentes, formadores da consciência social, sobre os direitos humanos e sobre a doutrina social da Igreja, hospitalidade.

Para que uma paróquia ministerialmente organizada funcione bem é fundamental poder contar com um conselho paroquial que inclua responsáveis quer dos ministérios ordenados, quer dos laicais, para que em comunhão acompanhem o processo evangelizador, discirnam os sinais dos tempos para compreender quais devam ser as opções pastorais adequadas ao contexto e aos tempos actuais e quais os ministérios necessários para levar em frente o trabalho missionário. É igualmente importante contar com uma espiritualidade que ajude todos os evangelizadores a conhecer e a amar mais a sua própria vocação de discípulos missionários de Jesus Cristo.
P. Fernando Mal Gatkuoth