Leigos Missionários Combonianos

LMC: da colaboração à corresponsabilidade na missão

Asamblea Italia 2026

Cerca de quarenta Leigos Missionários Combonianos italianos passaram o fim de semana de 5 e 6 de setembro na Casa Geral dos Combonianos, em Roma, reunidos para a sua assembleia anual. O Superior Geral, padre Luigi Codianni, deixou-lhes uma mensagem de gratidão e de encorajamento para caminharem juntos, tanto a nível nacional como internacional.

Caríssimos amigos e amigas,

É para mim uma grande alegria poder encontrar-vos aqui, na nossa casa de Roma, por ocasião deste vosso encontro. Antes de mais, gostaria de vos expressar a minha gratidão pela vossa presença, pelo caminho que estais a percorrer e, sobretudo, pelo vosso compromisso com a missão.

Gostaria de começar precisamente com um obrigado. Obrigado por aquilo que sois e pelo que fazeis; obrigado pela vossa disponibilidade, pelo tempo que colocais ao serviço da missão, pelas vossas energias, competências, paixão e também pelas vossas famílias, que muitas vezes partilham e apoiam as vossas opções missionárias.

Hoje, a missão já não pode ser pensada apenas como tarefa das pessoas consagradas. A missão pertence à Igreja e, na Igreja, pertence a todos os batizados. Por isso, a vossa presença como Leigos Missionários Combonianos (LMC) não é algo marginal ou simplesmente complementar à missão dos Missionários Combonianos. É uma presença que enriquece a missão e que nos ajuda a compreender cada vez melhor o que significa ser uma Igreja missionária.

Uma história a preservar e renovar

Gostaria também de reconhecer em vós um grande recurso e um enorme potencial para a missão laical comboniana.

Os LMC em Itália têm uma história importante, construída ao longo dos anos através de muitas pessoas, muitas experiências, muitas partidas e regressos, muitos momentos de entusiasmo, mas também, certamente, momentos de esforço e dificuldade.

É uma história que não deve ser esquecida. Uma história a preservar, mas não simplesmente a conservar.

Uma história viva é, de facto, uma história capaz de se renovar.

O carisma de São Daniel Comboni não é um património para ser colocado numa vitrina e contemplado com nostalgia. É um dom do Espírito confiado à Igreja, que cada geração é chamada a encarnar no seu próprio tempo.

Por isso, encorajo-vos a manter viva a vossa identidade missionária comboniana, procurando continuamente compreender como o carisma de Comboni pode ser vivido hoje, nas condições concretas do nosso mundo.

Ser fiel ao carisma não significa simplesmente repetir aquilo que foi feito no passado. Significa ter o mesmo coração missionário de Comboni e, com esse coração, saber ler o presente e enfrentar os novos desafios.

Deixar-se renovar pela missão

Por isso, gostaria de vos exortar a permanecer abertos, disponíveis e capazes de vos deixar renovar continuamente pela missão.

Vivemos num mundo que muda rapidamente. Mudam as sociedades, mudam as Igrejas, mudam as situações políticas e económicas, mudam os meios de comunicação e também a forma como as pessoas vivem a fé.

Por isso, também a missão nos pede para mudar.

Não podemos limitar-nos a repetir esquemas conhecidos. Somos chamados a discernir os sinais dos tempos e a perguntar-nos continuamente: onde nos está o Senhor a chamar hoje? De que precisa a missão? Onde podemos colocar ao serviço aquilo que somos e aquilo que recebemos?

Neste sentido, a vossa experiência missionária internacional é uma grande riqueza.

Os LMC italianos assumiram importantes responsabilidades em diferentes partes do mundo: Brasil, Peru, México, Quénia, Moçambique e República Centro-Africana. Estas presenças não devem ser consideradas simplesmente como experiências pessoais individuais. Fazem parte de um caminho mais amplo e representam uma responsabilidade para toda a família comboniana.

A missão, de facto, pede-nos que saiamos de nós próprios e das nossas seguranças. Pede-nos disponibilidade para partir, mas também disponibilidade para mudar, para escutar, para aprender com as Igrejas locais e com as pessoas com quem partilhamos a vida.

O missionário não chega com tudo já decidido. Chega para encontrar, escutar, partilhar e construir juntos.

Uma família missionária chamada a crescer na comunhão

Gostaria, depois, de vos convidar a dar mais um passo no fortalecimento da vossa comunhão.

Tendes uma dimensão nacional, mas fazeis parte de uma realidade que é agora claramente internacional. E esta dimensão internacional é uma grande riqueza, mas implica também uma responsabilidade.

Devemos evitar o risco de que cada grupo, cada país ou cada realidade avance simplesmente por conta própria.

Ser LMC significa sentir-se parte de uma realidade maior. Significa poder dizer: esta é a minha comunidade, este é o meu grupo, mas esta é também a minha família missionária internacional.

Por isso, é importante trabalhar mais intensamente na coesão entre os diferentes grupos, favorecendo o conhecimento mútuo, a comunicação, a partilha de experiências e uma maior corresponsabilidade.

E a corresponsabilidade não pode ser apenas pastoral. É também económica.

Quando dizemos que somos uma família, devemos estar dispostos também a assumir as dificuldades dos outros. Não podemos pensar apenas nas necessidades da nossa realidade local. Devemos ter uma visão mais ampla e perguntar-nos como podemos apoiar também os LMC que vivem situações de maior fragilidade noutras partes do mundo.

Esta solidariedade concreta é uma das mais belas expressões da fraternidade missionária.

Caminhar juntos a nível nacional e internacional

Gostaria também de vos encorajar a manter uma boa harmonia entre as decisões que tomais a nível nacional e o caminho que os LMC estão a percorrer a nível internacional.

Penso, em particular, nas decisões e orientações que surgiram da última Assembleia da Maia, em Portugal.

O caminho internacional não deve ser entendido como algo distante da realidade italiana. Pelo contrário, deve tornar-se um ponto de referência para todos.

Somos chamados a caminhar juntos, reconhecendo que as diferentes realidades nacionais têm certamente as suas próprias características, mas pertencem a uma única família e partilham a mesma vocação missionária.

Isto é particularmente importante também neste momento, em que está em curso o processo de reconhecimento dos LMC como Associação Internacional de Fiéis por parte do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida.

Trata-se de um passo importante, que exige maturidade, sentido eclesial e capacidade de assumir responsabilidades.

Por isso, é importante que as realidades nacionais saibam confrontar-se, dialogar e harmonizar o seu caminho com o caminho internacional.

Reforçar o sentido de pertença

Gostaria também de vos recordar um aspeto que considero fundamental: o sentido de pertença.

Não basta ser LMC porque se participa nalguma atividade missionária ou porque se viveu uma experiência em missão.

Ser LMC significa pertencer a uma realidade, partilhar um caminho, reconhecer-se numa vocação e sentir-se responsável uns pelos outros.

O sentido de pertença não nasce automaticamente. Deve ser cultivado.

Por isso, é importante um trabalho constante de animação, acompanhamento e formação. É necessário ajudar as pessoas a compreender cada vez melhor o que significa ser Leigo Missionário Comboniano e acompanhá-las nas diferentes etapas da sua vida e do seu caminho.

Isto aplica-se especialmente aos jovens e àqueles que se estão a aproximar da realidade dos LMC.

Precisamos de uma verdadeira promoção vocacional missionária laical. Não podemos simplesmente esperar que as pessoas venham até nós. Devemos ir ao seu encontro, falar-lhes da beleza da missão, testemunhar o que significa viver o Evangelho no quotidiano e mostrar que, ainda hoje, existe uma vocação missionária para os leigos.

A missão precisa de vocações. E precisa de vocações maduras, generosas, disponíveis e capazes de viver a missão não como uma experiência individual, mas como um caminho eclesial.

A missão precisa dos leigos

Por fim, gostaria de sublinhar uma convicção que considero particularmente importante: hoje, talvez mais do que no passado, a missão precisa dos leigos e das leigas.

Precisa das vossas competências profissionais, da vossa experiência, da vossa criatividade, da vossa capacidade de estar inseridos na sociedade e de estabelecer relações com ambientes onde nós, religiosos, muitas vezes temos mais dificuldade em entrar.

Mas, acima de tudo, a missão precisa do vosso testemunho.

O mundo não precisa apenas de pessoas que falem sobre a missão. Precisa de homens e mulheres que saibam viver o Evangelho no quotidiano, no trabalho, na família, na sociedade, nas relações e nas situações concretas em que se encontram.

Por isso, a vossa vocação não é uma simples colaboração connosco, Missionários Combonianos. É uma vocação missionária de pleno direito.

Nós somos chamados a reconhecê-la, acompanhá-la, valorizá-la e ajudá-la a crescer.

Uma colaboração que nos enriquece mutuamente

Da nossa parte, gostaria de vos assegurar que os Missionários Combonianos continuarão abertos e disponíveis para a vossa presença e colaboração.

Mas gostaria também de vos dizer algo mais: não consideramos a vossa presença apenas como uma ajuda que nos ofereceis.

Também nós recebemos muito de vós.

A vossa presença interpela-nos. Ajuda-nos a olhar para a missão a partir de perspetivas diferentes. Recorda-nos que o Evangelho deve entrar na vida concreta das pessoas e das famílias. Ajuda-nos a compreender que o carisma comboniano pode ser vivido de formas diferentes e complementares.

Por isso, devemos aprender cada vez mais a caminhar juntos, não uns ao lado dos outros, mas uns com os outros.

Este é, na minha opinião, o desafio que temos diante de nós: passar da simples colaboração para uma verdadeira corresponsabilidade na missão.

Olhar para o futuro com esperança

Caríssimos LMC, tendes uma bela história atrás de vós, mas, sobretudo, tendes um futuro para construir.

Não tenhais medo das dificuldades. Não tenhais medo das mudanças. Não tenhais medo de colocar novas perguntas.

Tende, pelo contrário, a coragem do discernimento, a coragem de sonhar, a coragem de assumir responsabilidades e a coragem de renovar aquilo que precisa de ser renovado.

São Daniel Comboni acreditou na possibilidade de uma missão que parecia impossível. Teve a coragem de olhar para além das dificuldades do seu tempo e de confiar em Deus.

Também a nós, hoje, é pedido que tenhamos essa mesma coragem.

Agradecei, pois, pela história recebida.

Preservai aquilo que é precioso.

Renovai aquilo que precisa de ser renovado.

Partilhai as responsabilidades.

Construí uma maior unidade entre vós.

Abri-vos à dimensão internacional.

E, acima de tudo, continuai a deixar-vos guiar pelo Espírito, porque Ele é o verdadeiro protagonista da missão.

Da nossa parte, como Missionários Combonianos, desejamos continuar a caminhar convosco, partilhando aquilo que somos, aquilo que temos e aquilo que o Senhor nos confiou.

Confiamos este vosso caminho a São Daniel Comboni, para que continue a inspirar-vos e a acompanhar-vos nas escolhas que sois chamados a fazer.

E confiemo-nos também à Mãe de Deus, nossa Mãe, para que interceda por cada um e cada uma de vós, pelas vossas famílias, pelas vossas comunidades e por todos os LMC do mundo.

Que o Senhor vos abençoe, vos acompanhe e vos torne cada vez mais testemunhas alegres e credíveis do Evangelho e da missão.

Padre Luigi Codianni, MCCJ

Percorrendo caminhos com o povo de Carapira: juntos por um futuro de esperança

Escrevemos-vos do norte de Moçambique para partilhar a alegria e os desafios do nosso serviço missionário, que só é possível graças às vossas orações e ao vosso apoio contínuo e precioso. Estamos a concentrar as nossas energias em projetos de promoção em vários campos: alfabetização, formação para mães e jovens, autossuficiência e economia. Maria Augusta é a protagonista do trabalho com os alunos da escola primária que têm sérias dificuldades de escrita e leitura. Duas vezes por dia, acolhe sobretudo meninas que, durante um par de horas, aprendem e consolidam o que não conseguem fazer em três horas de aula numa turma de cem alunos. Ilaria dedica-se à formação económica, um aspeto importante num contexto cultural que desconhece o conceito de poupança e onde a tradição é gastar imediatamente o que se ganha; um trabalho de paciência, sabendo que não se podem colher os frutos esperados a curto prazo. A Federica dedica-se à formação dos jovens, porque eles são o futuro deste país. Se até há pouco tempo eram os protagonistas dos incêndios na savana e dos bloqueios de estradas devido à insatisfação política, hoje, com eles, aposta-se na interiorização de valores como a paz, a preservação do ambiente e a possibilidade de pensar e projetar com criatividade um futuro melhor.

Os desafios que enfrentamos são bastante árduos: a pobreza e a destruição provocadas por um ciclone, como aconteceu recentemente, não se apagam com um simples golpe de esponja, mas acreditamos que construir nas pessoas e com as pessoas pode trazer resultados positivos. Por isso, empenhamo-nos todos os dias em trabalhar para transformar a vida das pessoas através da formação prática e da educação. Na escola secundária de Carapira, oferecemos também uma formação intensa nos valores humanos e evangélicos; o ensino inclui uma parte teórica e outra prática. Além disso, esforçamo-nos para que estes 250 alunos, que vivem longe das suas respetivas comunidades, não percam a formação catequética.

Fazemos isto todas as sextas-feiras, percorrendo com eles um caminho anual enriquecido por retiros e saídas, encontrando experiências de vida. Estamos felizes por participar também no dinamismo das 99 comunidades de Carapira; a paróquia inclui, além do centro, cinco regiões e 21 zonas pastorais. O que nos propomos realizar é tornar as pessoas o mais autónomas possível na sua gestão. Estamos extremamente convencidas de que não é dando coisas ou dinheiro que resolvemos as situações. É claro que a ajuda prática também é necessária, mas, se não for apoiada por formação e por um percurso de consciencialização, torna as pessoas dependentes. Todas nós procuramos não dar origem a injustiças num país que já viu muitas e partilhar, com elas, a nossa vida quotidiana. O contexto é difícil: corrupção e discriminação de todo o tipo e poucas possibilidades de trabalho.

Tudo isto contrasta com os muitos recursos de matérias-primas que, em vez de serem riqueza para Moçambique, se tornam interesse de países estrangeiros, incluindo a Itália. Em Nampula, a uma hora de nós, ainda existem campos de refugiados onde vivem aqueles que fugiram do terrorismo de origem islâmica ainda em curso em Cabo Delgado. Uma violência produzida não tanto por razões religiosas, mas sim pelo controlo do território. Envolvemo-nos na nossa realidade com base num discernimento comunitário. E a resiliência do nosso povo incentiva-nos a continuar a fazê-lo. Atualmente, estamos a acompanhar o projeto de combate à desnutrição, ajudando 40 mães a cuidar dos seus filhos que, de outra forma, correriam o risco de morrer por falta de comida. Planeámos também a remodelação da cozinha da escola secundária, que se encontra em grande precariedade, sobretudo devido às consequências de anos de fumo. Uma degradação que tem repercussões na saúde dos alunos e do pessoal escolar. Estamos gratos a todos aqueles que contribuem para a nossa atividade, moral e materialmente. Partilhem assim a obra de testemunho e de amor que nos ajuda a transformar a nossa vida e a das pessoas que nos acolheram. Muito obrigada (graças em português)!

Koxukhuru vanjene (muito obrigada, em língua macua)!

Federica e Ilaria – LMC em Moçambique

[Revista Nigrizia, abril de 2026]

Experiência missionária de verão em Carapira (Moçambique)

Luca Carapira

Chamo-me Luca, tenho 24 anos e, há alguns meses, tive a sorte de viver uma intensa experiência missionária em Moçambique, mais precisamente em Carapira, onde, graças ao acolhimento dos padres e das leigas missionárias combonianas, tive a oportunidade de conhecer o povo Macua.

Parti para esta experiência a 18 de agosto, juntamente com Ilaria e Federica, duas missionárias que há quase dois anos dedicam o seu serviço ao que agora se tornou a sua casa: Carapira. Tive a sorte de as conhecer há dois anos em Modica, na Sicília, pouco antes da sua partida.

Esse encontro marcou-me profundamente e, desde logo, começou a amadurecer em mim o desejo de ir ter com elas à terra de missão, certamente para me colocar ao serviço, mas sobretudo para conhecer, aprender e deixar-me envolver pela beleza e pela humanidade que caracterizam esses lugares. Assim, neste verão, Federica e Ilaria, após um breve período na Itália, acolheram com alegria e entusiasmo o meu pedido de poder acompanhá-las.

E assim, após uma viagem aérea marcada por mil peripécias, entre voos perdidos e cancelados, chegámos finalmente a Moçambique, a Carapira.

Desde o início, fiquei profundamente impressionado com o acolhimento da comunidade local. Depois de me apresentar durante a primeira missa em que participei, tropeçando com o meu português, tornei-me para todos «Mano Lucas», ou seja, «irmão Luca». Logo comecei a chamar de «mano» e «mana» a todos que encontrava; aprendi até a chamar de «mamã» e «papá» as pessoas mais velhas do que eu, entrando assim numa dimensão de familiaridade e comunidade, talvez nunca experimentada antes, que me fazia sentir acolhido e bem.

A incrível acolhida que recebi fez-me sentir à vontade desde o primeiro momento e ajudou-me muito a integrar-me, embora sempre com cautela, na vida quotidiana e na realidade de Carapira. Dediquei as primeiras semanas principalmente à observação, ao conhecimento e à tentativa de compreender melhor o contexto em que me encontrava, para entender como poderia oferecer a minha contribuição no pouco tempo que tinha disponível. Logo percebi que, para conseguir isso, precisava de parar de pensar apenas com a minha cabeça e aprender a abrir o coração, confiando no amor de Deus.

Foi assim que, certa manhã, enquanto ainda me recuperava de dois dias de febre, algumas crianças do bairo (aldeia) vieram visitar-me. Eles souberam que eu não estava muito bem e, sem hesitar, correram para me trazer um pouco de alegria e me animar. Além de me fazerem companhia, foram eles que me confiaram o que mais tarde se tornaria a minha missão: pediram-me para ajudá-los a estudar matemática.

Infelizmente, em Carapira, muitas crianças têm dificuldade em aprender realmente alguma coisa na escola. E como culpá-las? Existem todos os pressupostos para tornar este percurso extremamente difícil: apenas três horas de aula por dia, turmas com cerca de noventa crianças e um único professor, salas de aula demasiado pequenas, ausência de carteiras e cadeiras, calor sufocante e, em alguns casos, falta até de canetas e cadernos. O resultado é que muitos ficam para trás, chegando a não saber fazer somas simples ou mesmo a ser analfabetos, apesar de frequentarem a escola há anos.

No entanto, a vontade de sair dessa situação e o desejo de aprender são grandes.

Assim que me recuperei completamente, começámos esta aventura. Os recursos disponíveis eram poucos — algumas folhas e canetas — e os espaços eram os que eram. Assim, começámos a nos reunir perto da grande igreja de Carapira, sentando-nos no chão e usando as paredes da igreja como encosto. Acomodávamo-nos onde havia sombra: de manhã de um lado, à tarde do outro, mudando de hora em hora para fugir dos raios diretos do sol.

Em um piscar de olhos, a notícia se espalhou e muitos preferiram «abandonar» o futebol por algumas horas do dia para vir estudar um pouco de matemática em companhia.

Como sempre digo, não por modéstia, mas porque é a verdade, o que essas crianças conseguiram me ensinar nos dias que passamos juntos foi muito mais do que eu consegui ensinar a elas. Poder observá-las, conhecê-las, ser amigo delas — ou, como diriam elas, «irmão» — foi uma grande sorte, que guardarei sempre no coração e que me enriqueceu profundamente. O encontro com a diversidade leva sempre a novas descobertas que alimentam o espírito; leva a tomar consciência de aspetos de si mesmo que, de outra forma, dificilmente emergiriam e, acima de tudo, ajuda a compreender que, apesar das mil diferenças, no fundo somos todos muito mais semelhantes do que pensamos. Só quando se chega a esta consciência é que se torna realmente possível falar de «fraternidade global». Se ao menos quem governa este mundo louco conseguisse compreender isso…

Voltando à minha experiência, poderia contar muitos outros momentos significativos vividos nesses dois meses: desde a beleza da vida comunitária experimentada com os missionários combonianos, aos quais serei sempre grato, até à intensidade da fé alegre e autêntica do povo moçambicano, passando pelos muitos encontros nas pequenas comunidades espalhadas pela natureza e muito mais.

Mas não me alongarei mais, também porque para contar tudo isso precisaria de páginas e páginas.

No entanto, para encerrar, gostaria de partilhar uma reflexão que, durante os dias passados em Moçambique, amadureci primeiro em relação a mim mesmo e, talvez, de forma mais geral, em relação à «tribo branca», como a define o padre Alex Zanotelli.

Esta reflexão surgiu no momento em que, pouco tempo depois do início da missão, comecei a perceber que quem estava a receber mais ajuda era precisamente eu. Paradoxalmente, aquele que mais estava a ser ajudado era precisamente aquele que tinha partido para ajudar e que, talvez pecando um pouco de presunção, nem sequer se sentia tão necessitado. Esta descoberta derrubou muitas das minhas convicções e, sem dúvida, permitiu-me recomeçar com um espírito novo. Era o espírito de quem, consciente dos seus limites, deseja receber ajuda, deseja sentir-se acolhido e tocado pelo amor de Deus, para poder guardá-lo e depois devolvê-lo, de uma forma nova, àqueles que o rodeiam. Afinal, é só depois de termos sido ajudados que, seguindo o exemplo, podemos ajudar os outros, retribuindo o amor recebido e criando uma espiral de bem que se autoalimenta.

Acredito, portanto, que reconhecer-se «necessitado», apesar de todo o nosso conforto e de tudo o que possuímos, é o caminho para conseguir acolher verdadeiramente o amor de Deus e o primeiro passo a dar para se colocar verdadeiramente ao serviço dos outros.

Eis, então, o que a missão mais me ensinou e, consequentemente, o desejo que tenho para quem ler este artigo: tentar abandonar as suas presunções e aprender a reconhecer-se como necessitado, para conseguir realmente encontrar o Outro, que é Deus.

Luca

Segunda comunidade LMC no Quénia: um sonho tornado realidade!

LMC Chelopoy

Domingo, 16 de novembro de 2025, que dia histórico! É o início de uma nova aventura para nós, LMC, aqui no Quénia, pois neste dia abrimos uma segunda comunidade em Chelopoy, West Pokot!

Estamos muito gratos a todos aqueles que tornaram isso possível: o nosso «ancestral» (como carinhosamente o chamamos), o padre Maciek Zielinski, o provincial MCCJ do Quénia, o padre Andrew Wanjohi, os LMC do Quénia e todos os LMC!

Os membros da nova comunidade são: Mercy Lodikai (do Quénia), Giulia Lampo (da Itália) e Iza Tobiasiewicz (da Polónia). Aplausos, por favor!!! Estas três pioneiras estão prontas para começar a servir na área de Chelopoy e provavelmente irão juntar-se à comunidade de Kitelakapel no projeto Life Skills, expandindo-o às escolas da sua área, ao mesmo tempo que colaboram com o dispensário local, gerido pelas irmãs franciscanas de São José – Asumbi. Também se irão envolver em atividades pastorais, claro. Por enquanto, o plano é que elas tenham tempo para se instalar e conhecer o lugar e as pessoas, criar laços de amizade e conhecer a sua cultura, a sua situação e as suas necessidades.

No seu primeiro dia, enquanto celebrávamos a abertura da comunidade e as obras de renovação na casa que irão utilizar, foram recebidos com grande calor e alegria pela população local. Nós, a comunidade de Kitelakapel, acompanhámo-los e fomos abençoados com a presença do nosso querido fr. Maciek, do nosso igualmente querido provincial MCCJ, fr. Andrew, o pároco (P. Philip Andruga) e as Irmãs Combonianas de Amakuriat (a paróquia a que pertence a nova comunidade), e até dois representantes dos LMC do Uganda, a própria coordenadora Beatrice Akite e o tesoureiro Asege Teddy, acompanhados por dois voluntários italianos e um membro local da aldeia da paz de Kalya, no Uganda.

A missa foi animada e participativa, muito bem animada pela população local, que nos ofereceu alguns presentes e nos fez sentir em casa desde o início. O provincial procedeu então à bênção da casa e depois todos pudemos comer algo. Foi um momento de celebração simples, mas encantador.

Como sempre, começar uma nova comunidade num novo lugar não é algo fácil. Requer muita paciência, humildade e capacidade de adaptação. No entanto, os nossos amigos não estão sozinhos! Têm as irmãs franciscanas como vizinhas atenciosas, as famílias locais e os membros da igreja como novos amigos e nova família alargada, e os padres e irmãs de Amakuriat como uma forte fonte de apoio emocional e prático. Sem esquecer a nossa comunidade de Kitelakapel, que também está muito feliz por tê-los como nossos «vizinhos» em West Pokot! Juntos, percorreremos esta jornada, cresceremos, apoiar-nos-emos mutuamente e faremos coisas maravilhosas! E, claro, tudo isto só é possível com o apoio alargado de todos os LMC, de toda a família comboniana e de todos aqueles que acreditam em nós!

Por isso, obrigada a todos! Continuem a acompanhar-nos na oração e fiquem atentos!

Linda Micheletti, LMC Kitelakapel, Quénia

Cuidar da nossa casa comum e da democracia é uma luta diária!

LMC Brasil

Na conferência Gerando Esperança pela Justiça Climática, promovida pelo Vaticano marcando o 10º aniversário da encíclica Laudato Si’, o Papa Leão XIV sublinhou que “não há espaço para indiferença ou resignação”, e dentre tantos alertas, falou da necessidade de que “Todos na sociedade, por meio de organizações não governamentais e grupos de defesa, devem pressionar os governos a desenvolver e implementar regulamentos, procedimentos e controlos mais rigorosos. Os cidadãos precisam de assumir um papel ativo na tomada de decisões políticas a nível nacional, regional e local”

Este chamamento do Papa está diretamente ligado com a reflexão feita no Grito dos Excluídos deste ano, manifestação que ocorre no Brasil a cada 7 de setembro, como podemos ler na partilha feita pela LMC italiana, Emma Chiolini, a seguir:

A manifestação tem um significado profundo desde sua criação em 1995, destacando desigualdades existentes em diversas áreas, como a falta de acesso à saúde, educação, moradia, trabalho decente e segurança, que ainda não serão garantidas a todos em 2025. O evento deste ano também tem como lema “Cuidar da nossa casa comum e da democracia é uma luta diária!”, refletindo a conexão com as crises climática e social e a defesa da democracia em um momento de ameaças internas e externas. Além disso, este ano em particular, houve solidariedade ao povo palestino e ao genocídio que sofre em uma guerra sem precedentes, política, social e humanamente injusta. Mais do que um protesto, o Grito dos Excluídos representa a resistência popular, articulando a defesa dos direitos humanos, da soberania nacional e da democracia. A manifestação é, portanto, um chamado à solidariedade e à participação cidadã, reafirmando que a luta por justiça social deve ser constante para que o Brasil e o mundo avancem rumo a uma sociedade mais justa, democrática e sustentável.

Em 2025, o movimento fortalece essas reivindicações promovendo um Plebiscito Popular, cujo objetivo é incluir a população nas decisões sobre questões como a redução da jornada de trabalho, o fim da escala 6×1 e a tributação dos super-ricos. A participação de todos é importante; é democracia, é igualdade, é reconhecimento. Não podemos ficar indiferentes ao sofrimento daqueles que são esmagados diariamente por esta sociedade. Não podemos ficar indiferentes à desigualdade. Não podemos ficar indiferentes ao sofrimento dos povos oprimidos e à arrogância dos mais fortes. Portanto, o grito dos Excluídos não deve ser silenciado, nem deve ser silenciada a denúncia daqueles que desejam silenciá-lo. Acredito em um caminho que se constrói em conjunto, que parte de baixo, do povo, de uma consciência crítica, que nos permite ver que a luta deve ser constante e contínua. Bertolt Brecht disse que quando a injustiça se torna lei, a resistência se torna um dever. Em um mundo globalizado, não podemos mais dizer que não sabemos. Pepe Mujica nos deixou uma citação que serve de exemplo para o nosso dia a dia: “A política é uma luta pela felicidade de todos”. Em um mundo onde a humanidade parece estar desaparecendo, vamos fazer a diferença novamente: vamos ser humanos novamente!

Emma Chiolini, Salvador, Brasil