Leigos Missionários Combonianos

Casa Familiar Rural de Açailândia: uma trajetória de lutas

CFR Brasil

Por Zé Luís Costa. Da Página do MST. (Editado por Fernanda Alcântara)

CFR Brasil

A Casa Familiar Rural (CFR) de Açailândia, no estado do Maranhão, foi constituída como associação, em 2001, depois que um pequeno grupo de pessoas militantes sociais se reuniu e começou a discutir formas de melhorar a questão da educação do campo para a realidade local.

De prontidão, entidades iniciaram a proposta da casa familiar e entraram nesse debate desse projeto político e social, como o MST, que estava recém instalado na cidade, a ordem religiosa dos combonianos, Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos e o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da cidade.

A experiência desse tipo de escola já é antiga no mundo, e no estado do Maranhão elas estão presentes em várias cidades diferentes. Em outras partes do mundo essa modalidade de escola é conhecida como “Escola Família Agrícola”.

A partir das primeiras discussões, as organizações interessadas realizaram vários encontros, inclusive em outras cidades dos arredores, como lembra Xoan Carlos (LMC). “Realizamos uma série de reuniões nas comunidades. Foram mais 60 reuniões nos municípios de Açailândia, São Francisco do Brejão, Itinga, Bom Jesus das Selvas. E então se constitui a associação”.

Ele continua: “A partir daí, conseguimos um terreno, cedido pela igreja católica. Porém, não tínhamos condições de construir o prédio, de pagar funcionários. Então foram mais alguns anos de luta e articulação na busca de projetos, e conseguimos alguns apoios internacionais”.

CFR Brasil

Posteriormente, em 2003, as organizações envolvidas na ideia conseguiram começar o que sonhavam para a cidade e entorno, tendo em vista a grande quantidade de assentamentos e comunidades rurais que tinham nas proximidades da cidade, hoje com 110 mil habitantes. Era um sonho para o distante futuro.

Os pioneiros da ideia conseguiram, com muita luta, parcerias com a prefeitura, como afirma Xoan Carlos. “Em 2005 iniciamos as primeiras atividades da CFR. Começamos com curso de ensino fundamental, a gente tinha conseguido estruturar várias unidades produtivas na agricultura, na apicultura, de criação de gado, porco… O governador Jackson Lago teve a intenção de fazer curso de ensino médio integrado à educação profissional, e aí iniciou-se um novo momento para a CFR”, conclui.

Com essas articulações, em 2006, iniciou-se o curso Nível médio, que foi se adequando melhor às necessidades dos jovens do campo. Principalmente porque, quando em 2001, muitas comunidades só tinham jovens com no máximo até quarta série. Essa era então a necessidade: uma escola com características diferentes das convencionais, para o campo.

Jarbe Firmino foi aluno da primeira turma da Casa Familiar Rural de Açailândia, e posteriormente entrou na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Ele cursou Licenciatura em Educação do Campo e retorna à CFR, agora como monitor/professor, passando depois a ocupar cargo na instituição como coordenador geral.

Ele conta da experiência fazendo críticas à posição do poder público: “Essa experiência a qual me refiro, de coordenador, bem como em outros momentos, foi de grande dificuldade em termos de apoio do poder público. Foram períodos em que os contratos não eram cumpridos por parte do Estado, fragilizando o movimento do qual CFR faz parte”, encerra.

Após toda essa luta, veio o reconhecimento e conquistas. A principal delas foram a formação dos jovens em técnico em agropecuária para atuar nos assentamentos junto às suas famílias e em alguns órgãos do estado. Houve reconhecimento por parte do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, o CREA, para que pudessem trabalhar de formas oficiais prestando assistência técnica em projetos.

Entretanto, o desejo da coordenação e do grupo que organiza a associação e a CFR é que os alunos, formados, trabalhem com as suas famílias desenvolvendo o que eles aprenderam, nas propriedades familiares, como a maioria são de assentamentos da reforma agrária.

CFR Brasil

A CFR é administrada por uma associação, e atualmente o presidente é Xoan Carlos. A coordenação é escolhida pela associação e tem dez professores que são contratados pela Secretaria de Estado de Educação do Maranhão.

História das Casas Familiares Rurais

As Casas Familiares Rurais tiveram origem na França, em 1935, numa situação de forte êxodo rural, quando um grupo de famílias, com o apoio da igreja católica, reuniu-se para repensar essa situação. Chamaram-no de “Casa” para diferenciar da escola convencional e porque começou na casa de uma família; “Familiar” porque era uma organização das famílias e não do governo; e “Rural” porque o objeto da experiência era no meio rural na sua globalidade: técnica, humana, cultura, etc.

Hoje, na França, existem 450 CFRs. A partir dos anos 60, a experiência alastrou-se pela Espanha e a Itália com o nome de “Escola Família Agrícola”. Existem cerca de 1.000 CFRs nos cinco continentes, em trinta países.

No Brasil, as CFRs começaram a surgir no final dos anos 60, existindo na atualidade uns 150 centros educativos rurais que funcionam usando a “Pedagogia da Alternância”. No Maranhão são aproximadamente 27 escolas com esses princípios formativos. A pedagogia da alternância desenvolvido dentro dos métodos de Paulo Freire, em uma construção da formação técnica, é unida com a formação para a vida, no caso de Açailândia, amplia a parceria nas lutas por um modelo de agricultura diferenciado.

CFR Brasil

Missão na Etiópia

CLM Ethiopia

Descobrir a missão e cuidá-la é também olhar para pequenos retratos e imagens que captam a alegria imensa que é ser missão, neste caso, entre os GUMUZ. Os Gumuz (habitantes na região de Benishangul-Gumuz) são o povo que Deus destinou aos nossos amigos LMC na Etiópia como lugar de missão e de partilha. Foi para ali que foram ao encontro do amor e hoje, neste vídeo, vemos um pouco (só um pouquinho…) daquilo que é o trabalho missionário. O resto do que possa ser partilhado (e que é tanto) fica para uma boa dose de conversa e escuta sobre o testemunho destes missionários.

LMC Etiópia

Romaria do Servo de Deus Pe Ezequiel Ramin – 2020

Ezequiel

“Mártir da terra e do sonho de Deus! Memória dos 35 anos de seu martírio! ”

Ezequiel

No dia 24 de julho de 2020 celebraremos 35 anos de memória do martírio do Servo de Deus padre Ezequiel Ramin, missionário comboniano, morto em Rondônia por defender a vida de Povos Indígenas e famílias sem terra.

Este ano não será possível celebrar a Romaria de padre Ezequiel como sempre fazemos em Cacoal/RO e Rondolância/MT, com muita gente por conta do COVID 19.

O COVID ao mesmo tempo nos chama a prudência e a solidariedade, especialmente com os territórios mais ameaçados, com a Amazônia querida, os Povos Indígenas e as populações originárias. Assim celebraremos esta Romaria no compromisso com eles, de forma diferente, envolvendo muito mais gente no Brasil todo.

Teremos ao longo dos dias uma programação com diversas atividades que serão transmitidas ao vivo, sempre no horário das 20h (de Brasília) e pelo canal do youtube Combonianos.Brasil. Além de vídeos diários com testemunhos em memória de pe Ezequiel Ramin.

Estamos juntos nesta Romaria de padre Ezequiel que vai se espalhar pelo Brasil todo. Caminhemos em defesa da Vida! Em defesa da Amazônia!

Programação:

Dia 19/07 ás 20h – Vigília Missionária Vocacional em Memória a pe Ezequiel Ramin.  Escolasticado Internacional Comboniano /SP

Dia 20/07 ás 20hRoda de Conversa com Dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho/RO e presidente do CIMI, com a CPT/RO e padre Dario Bossi, Missionário Comboniano.  “35 Anos do Martírio de padre Ezequiel Ramin: Testemunho profético em defesa dos Povos indígenas e famílias sem terra”.

TRÍDUO EM MEMÓRIA a padre Ezequiel Ramin:

DIA 21/07 – ás 20h  – 1º dia do Tríduo (da Comunidade de Curitiba/PR)

Dia 22/07 – ás 20h  –  2º dia Tríduo (da Comunidade de Contagem/MG)

Dia 23/07 – ás 20h  – 3º dia do Tríduo (da Comunidade de Piquiá/MA)

Dia 24/07 – ás 20h – Celebração eucarística em ação de graças por padre Ezequiel Ramin e como compromisso coletivo em defesa da Vida. (da Comunidade de SP).

Família Comboniana Brasil

Sim significa Não

Etiopia

Borana Culture Ethiopia
Borana Culture, Southern Ethiopia

“O que você acha?”, continuou Jesus. Havia um homem que tinha dois filhos. Ele foi ao primeiro e lhe perguntou: “Filho, vai trabalhar na vinha hoje”.   “Eu não quero”, ele respondeu, mas depois se arrependeu e foi embora. Então o pai se voltou para o outro filho e lhe perguntou a mesma coisa. Ele disse: “Sim, senhor”, mas ele não foi. Qual dos dois fez o que seu pai queria? “O primeiro”, responderam eles. Mateus 21:28-31

Após a leitura desta parábola na missa dominical na missão rural de Dadim, o padre Anthony, um missionário nigeriano, mergulhou em sua homilia com confiança. Uma vinha é inimaginável no meio do solo vermelho árido do sul da Etiópia, então o padre trocou alguns detalhes da parábola por algo que o povo pudesse entender. Dadim é uma região de pastores perto da fronteira do Quênia, onde o gado e os camelos vagam livres e a vida do povo Borana semi-nômade gira em torno de seu gado. Então o Padre Anthony reescreveu a história e falou de uns filhos que foram convidados a levar o rebanho para beber água.  Apesar desta mudança, a história permaneceu essencialmente a mesma: o primeiro filho disse “Não” e depois foi; o segundo filho disse “Sim”, mas não foi.  E ele perguntou à assembléia: “Qual dos dois fez a vontade do Pai? Os paroquianos foram unânimes: o segundo filho. O padre, um pouco confuso, explicou a história de novo em detalhes. E mais uma vez ele recebeu a mesma resposta.

Na cultura Borana, a palavra “não” nunca é pronunciada. Nem mesmo em voz baixa. É o insulto de maior gravidade e ainda mais se for dito a um pai. É o mais grave desrespeito. A única resposta que sempre pode ser dada é “Sim”. Mas será que este “sim” implica sempre a afirmação? A resposta parece ser não. Pode-se concordar com a hora e o local de uma reunião e nunca aparecer; pode-se concordar em fazer um trabalho e nunca o fazer; pode-se dizer que ficará, mas vai embora; pode-se dizer que vai embora, mas fica.

Você pode realmente dizer “Sim” com muitas boas intenções, mas então há tantos fatores em sua vida que podem mudar seu plano inicial que a maioria das respostas afirmativas nunca realmente acontecem. Mas dizer “não” é tão sério que mesmo tomando a ação apropriada mais tarde você não pode corrigir o erro inicial.

Naquele dia, não se chegou a nenhum consenso entre o padre, que havia acabado de chegar, e os paroquianos. Para o povo Borana, foi a atitude inicial do primeiro filho que o fez mal. Que coragem para ele dizer “não” a seu pai.

A missão está cheia de situações desconcertantes. E isto nos lembra as diferenças que encontramos nas culturas e os desafios de comunicar a mensagem do Evangelho nessas culturas. Talvez o padre Anthony também tenha aprendido uma lição importante para seu trabalho futuro com a comunidade Borana, embora certamente tenha esperança de que um “Sim” se torne realmente uma ação e um compromisso.

 

Maggie, Mark, Emebet, Isayas e Therese Banga, Leigos Missionários Combonianos, Awassa, Etiopia