Leigos Missionários Combonianos

“A missão não se faz sem amor!”

LMC PortugalÉlia Maria Cabrita Gomes nasceu a 29 de janeiro de 1955 e é natural de Paderne (Albufeira). É enfermeira, aposentada. Em 2006 teve o seu primeiro contacto com o continente Africano num projeto de sete meses com a Assistência Médica Internacional (AMI) na República Democrática do Congo. Em 2011 partiu com os Leigos Missionários Combonianos (LMC) por dois anos para a República Centro Africana. Acabou por ficar cinco anos nesta missão.

Quando tinha apenas 16 anos surgiu uma oportunidade de fazer uma experiência de dois meses em Angola que considera ter sido “o clic para realizar um sonho”. Infelizmente o seu pai não estava de acordo e não partiu. Ainda enquanto estudante de enfermagem pensava partir mas em 1976 ao terminar o seu curso começa a trabalhar no Hospital de Faro onde ficou até à data da sua aposentação, casa e tem uma filha. Em 2006 tem finalmente a sua primeira experiência e parte por sete meses para a República Democrática do Congo com a AMI. “Foi uma experiência de apenas sete meses que serviu de estímulo e aumentou o meu desejo de voltar a África, de sair do meu comodismo e ir ao encontro de outros povos”, partilha. Começou a fazer voluntariado no Lar do Centro Paroquial de Paderne, a sua paróquia de origem, e descobre os LMC através da revista Além-mar que encontrou nos seus primeiros dias de trabalho. “Fiz a formação com os LMC (2008 – 2010), conheci Comboni, o seu lema “Salvar África com África” fazia todo o sentido, assim como sair, ir ao encontro dos mais pobres e abandonados, contribuir para a melhoria da sua qualidade de vida e favorecer a promoção humana”, diz-nos.

Foi por dois anos e ficou cinco!

Em Fevereiro de 2011 chegou a Bangui (capital da República Centro Africana – RCA, a Mongoumba, por um período de dois anos, “sem expectativas preparada para aceitar e dar o que a missão me pedir”. Acabou por ficar cinco anos “com experiências de vida muito intensas. Os primeiros tempos foram de aprendizagem: ver e ouvir, aprender a estar, aceitar e respeitar, enfim dar os primeiros passos numa cultura e hábitos tão diferentes dos nossos”, diz-nos. Sobre o seu destino Mongoumba diz-nos que é a sede de um dos dez concelhos do distrito de Mbaiki: “é uma vila com cerca de 8.000 habitantes, situada a 190 km de Bangui, em plena floresta equatorial. Faz fronteira com a República Democrática do Congo e o Congo Brazaville. O concelho de Mongoumba tem uma população de 25.000 habitantes de várias etnias contando entre elas o povo pigmeu Aka. Os pigmeus são descriminados pelo resto da população que os utiliza como mão-de-obra barata, são os mais desfavorecidos da sociedade, vivem em vários acampamentos dispersos na floresta, quase todos habitam em casas de folhas, são poucos os que fazem casas de barro e de tijolo ainda menos, alimentam-se do que recolhem da floresta. Os seus bens resumem-se ao que podem transportar quando deixam o acampamento e partem, mais para o interior da floresta, para as campanhas de pesca, recolha de mel, lagartas… Produtos que vendem ou trocam por sal, panos para se cobrirem e pequenos adornos. Raramente têm dinheiro e o pouco que têm nunca é suficiente para pagar os cuidados de saúde.

A missão de Mongoumba tem como prioridade a evangelização do povo pigmeu e grande parte das nossas actividades têm em vista a melhoria das condições de vida deste povo e a sua integração social. Numa pastoral de proximidade e trabalhando na sensibilização e promoção da saúde visitei muitos acampamentos, visitei doentes, desparasitei crianças e nos dois primeiros anos, com a colaboração do exército francês, fizemos várias campanhas de tratamento do pian (doença contagiosa e incapacitante). Fiz muitos quilómetros a pé na floresta… Numa realidade dura que não é possível mudar, apenas retocar com um pouco de criatividade e ter esperança que as sementes lançadas deem fruto. Após vários anos de trabalho, em que a Missão serviu de ponte entre este povo e o Centro de Saúde público, o resultado começa a ser visível e gratificante, os pigmeus ainda são os últimos a ser atendidos nas consultas, mas são consultados e quando necessitam de internamento ficam nas mesmas enfermarias que o resto da população. Durante cinco anos uma das minhas actividades foi de vigilância para com os pigmeus internados, para que não fossem esquecidos, porque é muito fácil esquecer o tratamento ou dar a injeção a quem não tem voz! A ajudar-me nesse trabalho sempre contei com a preciosa colaboração dos dois agentes de saúde que trabalham no Centro de Reabilitação física da Missão. Muito do nosso trabalho é despertar consciências porque toda a gente é pessoa, em Sango “Zo kwe Zo” e como tal deve ser tratada e respeitada.”

Conta-nos que após o golpe de estado em março de 2013 “o país mergulhou no caos vivendo sob o domínio das armas durante três anos. A pobreza e o sofrimento da população atingiram níveis nunca antes imagináveis. Apesar das muitas ONG’s no terreno, a Missão Católica é quase a única instituição que continua, de forma constante, a trabalhar na defesa e promoção da dignidade deste povo tão sofrido, desenvolvendo actividades nas áreas da educação, saúde, promoção humana, pastoral, justiça e paz… Nos últimos dois anos o meu grande investimento foi na despistagem e tratamento das crianças mal nutridas, na sensibilização e formação dos pais sobre higiene e nutrição. Um trabalho desgastante tanto física como psicologicamente, mas tendo a compensação em cada criança que recuperou e voltou a sorrir. Tive a possibilidade de ter a trabalhar comigo uma boa equipa, gente da terra, disponível e interessada”.

Partir sem expetativas, regressar cheia de sonhos

Termina dizendo que apesar de ter chegado em 2011 sem expetativas, regressa em 2016 com o sonho de um dia regressar à missão da RCA e encontrar “casas que não são arrastadas pela chuva, com telhados que não são levados pelo vento; crianças saudáveis, bem alimentadas que têm livros e vão a escola; estradas sem buracos (mesmo as estradas de terra) e meios de transporte que aproximem aldeias, vilas e cidades; pigmeus que conhecem os seus deveres e são capazes de lutar pelos seus direitos; uma legislação nova em que as “bruxas” não vão a tribunal, mas sim os que as denunciam e atacam; centros de saúde e hospitais a funcionar com médicos e enfermeiros com formação, onde se fazem operações, análises e exames, onde há nome e causa para as doenças, deixando de haver doenças místicas; sonho que vou encontrar um país onde os pilares da educação, os professores, vão a escola e têm mais do que o 6º ou 9º ano de escolaridade; e, porque “Deus ama o seu povo”, tenho fé que o ódio que ainda existe vai dar lugar a uma paz duradoura num clima de amor e tolerância. É um sonho e uma esperança que as riquezas do país não vão só para os bolsos de alguns, mas passem a servir para melhorar a qualidade de vida de todos.

A missão não se faz sem amor! Gosto do país e gosto das pessoas, um povo que sofre, mas continua a rir, cantar e dançar. É o meu povo! Os mais pequenos são os que guardo com mais carinho no meu coração, recordar as crianças, os seus sorrisos puros e sinceros vai ser calor para as noites frias de inverno”.

Texto por Catarina António, FEC – Fundação Fé e Cooperação

Meskel

Etiopia

A Festa da Santa Cruz (chamada “Meskel”) é uma das maiores celebrações na Etiópia. É comemorada, de modo particular, na região de Gurage, onde tivemos oportunidade de passar uns dias e ver as celebrações. O nosso amigo Desalegn convidou-nos e assim podemos perceber como era a vida na sua aldeia. Dormimos numa casa tradicional onde também estavam os familiares de Desalegn.

Durante a celebração da Meskel, famílias inteiras vêm para as aldeias para passar este momento especial juntas. O sacrifício de um touro é uma das tradições mais importantes e toda a gente é envolvida. Depois das orações, um homem da vila, sacrifica o animal cortando-lhe a garganta. Então todos ajudam a cortar a carne e a prepará-la para ser comida crua durante a festa. A carne crua é uma iguaria muito popular na Etiópia, principalmente quando é fresca.

Nesse mesmo dia as mulheres preparam uma especialidade tradicional chamada “kitfo”, – a carne fresca crua é cortada em bocados muito pequenos sendo servida com manteiga e especiarias picantes. Ninguém nos perguntou se queríamos um pouco – deram a todos uma porção, por isso não a podemos recusar. A Magda, minha homónima, gostou bastante, mas para mim foi um grande desafio comer carne crua. Comi só um pouco.

Etiopia

Segundo a tradição Santa Helena queria encontrar a santa cruz para a salvar de ser profanada, encontrou-a seguindo o fumo de uma fogueira. Em memória a isto, pessoas em toda a Etiópia acendem fogueiras durante a festa. Na região de Gurage as pessoas da aldeia reúnem-se num grande espaço aberto e acendem juntos a fogueira.

Após o discurso de um ou de vários líderes, as pessoas desejam umas às outras um Feliz Ano Novo. De fato é o início do ano novo segundo o calendário local. De seguida dançam uma dança tradicional Gurage em círculo. Depois de algum tempo vão para casa e cada família acende uma fogueira em frente à sua casa. Muitas pessoas movem-se de uma fogueira para outra.

Demo-nos conta que quando um número de pessoas se reúnem numa fogueira em particular, muitos dos vizinhos se juntam a eles. Logo, todos juntos, vão de um lugar para o outro dançando e cantando a mesma canção tradicional. Isto durou até de madrugada.

No dia seguinte fomos à Igreja para a missa. Mais tarde, outra grande fogueira se acendeu. Houve danças e canções. As canções religiosas foram as primeiras a serem cantadas e depois a mesma canção tradicional Gurage.

Muitas pessoas visitam as suas famílias e amigos neste dia. Nós também fomos com o Desalegn visitar os seus familiares. Em todo o lado nos receberam com comida e bebida, começando com o café e vários aperitivos e terminando com o “kitfo”.

Etiopia

Resumindo, posso dizer que fui testemunha das tradições Gurage associadas à festa da Santa cruz. É um momento da família muito especial desta tribo. Tal como na Polónia que passamos o Natal com a nossa família mais próxima e amigos, comendo comidas típicas de Natal, as pessoas Gurage passam a maior parte do tempo sentados, falando e comendo juntas. Claro que também existem diferenças. Por exemplo as pessoas Gurage não utilizam mesas para colocar a comida e não passam horas a ver televisão.

Durante a nossa breve visita, tivemos uma vivência privilegiada com uma família Gurage. Permitiram-nos entrar na sua vida, sentir a atmosfera do lugar, conhecer a forma como se saúdam, experimentar as suas comidas, beber café e conversar com eles. Vimos de muito perto como trabalham, descansam, celebram e vivem a sua vida quotidiana. Foi uma experiencia muito interessante e enriquecedora. Agradecemos sinceramente ao Desalegn, aos seus familiares e às pessoas Gurage por esta grande honra.

Magda Fiec, LMC Awassa (Etiópia)

Que título?

Marisa LMCQue título utilizo? “Já passou uma semana” ou “ainda só passou uma semana” (desde que cheguei aqui)?

Cheguei a Londres no passado dia 3 de setembro. Os ponteiros do relógio passavam já das 23 horas quando entrei na «minha nova casa». Às vezes (sim, às vezes), esta não é a minha casa, é mais do que isso: é o meu lar – consigo senti-lo e comover-me com isto. [“Ainda só passou uma semana” e sinto-me bem aqui, nesta comunidade.]

Geralmente, cá em casa, somos 6 – eu; três padres (Pe. Angelo, italiano, Pe. Rogelio, Mexicano, e o Pe. Patrick, irlandês); e mais 2 jovens (o Paulo, que é enfermeiro e, há poucos dias, chegou o Amir, para procurar trabalho). Mas constantemente este número varia: por vezes há padres de outras comunidades, ou familiares/ amigos, que pernoitam ou ficam alguns dias connosco. [“Ainda só passou uma semana” e tenho conhecido tantas pessoas!].

A Comunidade de padres que vive comigo tem-me permitido aprender, crescer, amadurecer. Começamos o dia juntos, na Capela – rezamos as Laudes e celebramos Missa. Ao fim do dia, antes do jantar, é lá que nos voltamos a encontrar para a Oração da tarde. Aos poucos começo a conseguir rezar as orações “sem espreitar e sem ler” pelos livros (tudo em inglês!). [Às vezes penso: “ainda só passou uma semana e já consigo dizer uma oração sem estar constantemente a ler; outras, em momentos de algum desânimo, penso: “já passou uma semana e ainda preciso de um guia”]. Ainda assim, os padres são muito pacientes e incentivam-me a não descurar nem a perder a vontade de aprender. De vez em quando até me convidam para fazer as Leituras.

Pouco antes das 9h saio de casa para a escola onde tenho aulas de inglês. É lá que passo o resto da manhã. Na mesma classe que eu estão outras pessoas de várias idades e nacionalidades (turcos, brasileiros, argentinos, mexicanos, peruanos, japoneses e chineses). [“Ainda só passou uma semana”, mas tenho aprendido tanto!].

As refeições são feitas em comunidade. É um momento de partilha. Mais do que partilharmos os alimentos, partilhamos a vida uns com os outros. É também um momento de aprendizagem, de intimidade, de “pôr em comum” – um dos espaços privilegiados onde a relação flui. [“Ainda só passou uma semana”, mas as nossas relações têm-se sedimentado, aos poucos, ao ponto de sabermos cada vez mais um dos outros.]

No meu tempo livre tenho tido a oportunidade de conhecer Londres e visitar alguns sítios – Natural History Museum, Science Museum, Southbank Museum, London Eye, Big Ben, Buckingham Palace, Portobello Road (market), Royal Parks (Hyde Park, Diana – Princess of Wales Memorial Fountain, Serpentine Lake, Kensington Gardens, Albert Memorial, …). [“Ainda só passou uma semana” e já pude ver tanto…].

Para me ocupar, aproveito também para ler, para estar ou conversar com alguém e para ajudar cá em casa com alguma coisa que seja necessária.

«Tudo» serve para aprender aqui. O importante, tenho notado, é estarmos disponíveis (interiormente) para que isso aconteça – para errar, sem medo, e para aceitar humildemente as correções. Ainda que ler, ver televisão, ouvir alguém, estudar… sejam importantes para aprender [inglês], tem sido desta maneira que mais tenho aprendido: quando erro e alguém me corrige. Tenho aprendido que a correção tem, de certa forma, uma dimensão relacional – implica uma abertura generosa, espontânea e empática entre as pessoas – ajuda a ser e a construir vida entre aqueles que corrigem e se deixam corrigir.

Marisa LMCOntem, domingo, aconteceu algo de maravilhoso! O dia 11 de Setembro é o primeiro dia do ano, segundo o calendário Etíope – chama-se Enkutatash (“gift of jewels” – não estou certa da tradução nem do significado, deixarei «isso» para mais tarde…). O padre Frasa, que está cá em casa durante alguns dias, convidou-me para celebrar com a comunidade etíope desta zona. Foi delicioso, uma autêntica experiência de céu, no mínimo! A eucaristia, com o rito etíope, durou mais ou menos 3 horas (não percebi nada – absolutamente nada – do que diziam ou cantavam, pois foi celebrada em ge’ez, na língua amárica.

Marisa LMCNo final, fui apresentada à comunidade que me saudou e acolheu com alegria e hospitalidade, convidando-me para uma refeição tradicional. Dividi o prato com outras 4 crianças e uma mamã: é sinal de amizade, de hospitalidade, de lealdade (“aqueles que comem do mesmo prato não se vão trair”, disseram-me). Comemos injera e pude “experimentar” gursha (quando alguém enrola um bocado de comida em injera, mergulha em wot («molho»/ acompanhamento) e alimenta-nos diretamente à boca) – poder alimentar alguém é sinal de amizade e de amor («gosto de ti, por isso alimento-te»); poder receber comida de alguém é sinal de hospitalidade e de aceitação (é como um abraço entre amigos). [“Ainda só passou uma semana” e já tive a graça de mergulhar um pouco na “Etiópia”!]. Ficou a promessa de um reencontro no próximo domingo. É curioso aperceber-me que foi «à mesa» que experimentei a intimidade e onde «senti um quase batismo», o encontro com a cultura e com as pessoas. Que bênção!

Termino. Mas não sem antes reparar que não foi «só na Etiópia» que começaram o novo ano. De certa maneira, é também assim que me sinto: a começar algo singular, a inaugurar um novo ciclo e a dar os primeiros passos no caminho que me está a ser confiado.

Que título? O amor – a Comunidade; a Partilha; o Serviço; a Correção; … – O amor é o título (e o corpo e a memória)!

[PS: “Já passou uma semana”, e fui (tenho sido) abençoada com tantas maravilhas, com tantos encontros, com tantas experiências e confio que mais virão porque, ainda assim, “ainda só passou uma semana” – «Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10,10)].

Marisa Almeida, LMC em Londres

Notícias da missão em Mongoumba

Maria Augusta LMC

Aqui já terminou o Ano Pastoral no dia 3 de Julho. Participaram na missa todos os novos baptizados, os escuteiros que fizeram a sua promessa e todos os peregrinos das duas peregrinações. A primeira peregrinação a Bangui, pela vinda do Papa Francisco, e a segunda a Mbaiki, pela festa do Sagrado Coração de Jesus. Foi uma Eucaristia longa,cerca de 3 horas, mas toda a gente estava contente.
O bispo da Diocese fez um santuário ao Sagrado Coração de Jesus, no alto da colina, donde se avista uma bela paisagem. De Mongoumba fomos 250 peregrinos. Partimos no dia 30 de Maio e chegámos no dia 1 de Junho à noitinha. Eu não pude caminhar, pois tive que conduzir um dos carros que transportavam todos os utensílios necessários para cozinhar, a comida e as cozinheiras. Participei nas orações e nas catequeses que foram realizadas durante a peregrinação e no dia 2 em Mbaiki. No dia do Sagrado Coração de Jesus, fomos em procissão até ao Santuário, cerca de 4 km, com a imagem do Sagrado Coração de Jesus atrás. A missa foi transmitida pela rádio Maria, de Bangui, uma rádio católica que se ouve bem em Mongoumba. A peregrinação terminou numa das capelas da Paróquia, Batalimo, com a Missa e o batismo de 30 adolescentes. Pudemos dar graças a Deus por estarmos ali todos, com saúde e muita alegria. A Annia estava com malária e por isso não pôde participar. A Élia também não, porque alguém tinha que ficar com a Annia.

No final de Junho terminou a escola com uma percentagem baixa de aprovações, cerca de 50%, de alunos a transitar de ano. Espero que no próximo ano sejam melhores os resultados…

Hoje estou em Mbaiki, vim trazer os professores para participarem, durante duas semanas, na formação em francês e matemática e também em pedagogia. Deus permita que possam aprender bem para melhor ensinarem as crianças.

A Annia, LMC polaca, está adaptar-se bem e já sabe bastante sango. Ela estuda muito, e continua a estudar Francês. Aprender duas línguas seguidas não deve ser fácil.

Agora que estou mais livre da escola, vou ajudar nos trabalhos com as crianças mal-nutridas.

A Élia partiu no dia 2 de Julho para aí e já temos muitas saudades! Que o Senhor a ajude e que fique com o braço bem pois já sofreu muito com ele. Se puder voltar ficaremos muito satisfeitos!

Sempre unidos pela oração.

Desejo a todos umas boas férias.

Beijinhos

Maria Augusta, LMC Mongoumba

 

Tenho, ainda, a terra vermelha nos meus chinelos

LMC BrasilA terra que eu gostaria de permanecer como um eterno presente, uma terra sagrada, rica em história e memória. A memória é uma caixa de imagens, emoções, fatos, palavras, que não devemos permitir amarelar ou deixar cheia de poeira. A memória me permite compreender o meu presente e o do mundo, permite-me construir o meu futuro e o futuro do mundo.

A memória me permite alimentar o meu coração e recarregá-lo.

Esta memória, para comemorar o encontro que faz parte da Romaria dos Mártires que é realizado em uma pequena cidade do interior de Mato Grosso, Ribeirão Cascalheira, a cada 5 anos.

Na Romaria se lembram de todas aquelas pessoas na América Latina que deram suas vidas pela causa da justiça: para defender a terra, para defender a vida, contra a violência, contra a ditadura, contra a opressão dos poderosos, contra a arrogância do poder político e económico.

Homens, mulheres, jovens, crianças, povos indígenas, agricultores, trabalhadores, advogados, jornalistas, missionários, militantes da Pastoral da Terra, dos direitos humanos, sindicalistas e pessoas que lutaram corajosamente pela justiça, pela liberdade, pela paz, pela verdade. A luta pela terra é sempre forte aqui no Brasil, é uma ameaça que ainda mata. Matando qualquer um que se opõe e denuncia situações de violência e bullying nas terras indígenas, nos campos de Sem Terra, em comunidades de camponeses e pescadores.

Os grandes interesses económicos conduzidos por multinacionais e os interesses privados continuam a destruir, para ameaçar, para expropriar terras e povos. Mártires do passado, mas também os mártires do presente, as lutas que vivem nas pessoas da América Latina e do mundo inteiro. Todas as situações de injustiça, violência e desigualdade são um grito para o mundo, um grito que não pode ser mantido quieto,  esquecido …; lembrar-se, para estar presente na memória.

Nesta terra vermelha e sagrada, a presença de um homem, um profeta de esperança, de que, apesar de seus 88 anos trazidos em um corpo doente e cansado, queria participar, talvez, a sua última Romaria:

Dom Pedro Casaldáliga! A vida de Dom Pedro é um testemunho do evangelho feito de carne e ossos, uma testemunha que vale mais do que um livro de teologia. Uma vida gasta no serviço dos últimos, uma voz importante na luta contra o latifúndio e sua crueldade. Várias vezes ele foi ameaçado de morte, tanto em tempos de ditadura, como recentemente. Ele nunca desistiu, nunca mais se deixou intimidar.

Homem pequeno de grande fé e coragem.

Quando foi nomeado bispo de São Félix do Araguaia, em sua consagração, Dom Pedro estava usando um chapéu de palha dos camponeses como sua mitra, uma vara de madeira de índios Tapirapé como báculo, e um anel de madeira de Tucum em vez do de ouro.

Tem sido sempre ao lado dos camponeses e dos índios, sempre uma defesa forte.

À vista, mesmo se em uma cadeira de rodas, em um corpo curvo e sofrido, para mim foi uma grande emoção, porque o seu espírito ainda emana energia e sua pessoa fala mais que mil palavras.

Dom Pedro grande, grande querer estar presente nesta celebração!! Ele não queria perder.

Eu fiz quase 30 horas de ônibus percorrendo do estado do Minas Gerais para entrar no estado de Mato Grosso, cochilando numa cadeira e parando em diversas estações de serviço.

Muitas pessoas participaram nesta Romaria, de todas as partes do Brasil.

Fui com um grande grupo de Minas (dois ônibus cheios) de vários grupos da pastoral social. Tem sido boa a convivência e a riqueza de nos conhecer. Tem sido boa a partilha e a energia positiva que se fez sentir em todos os momentos, e o desejo de estar lá e continuar uma parte da história.

Alegria, partilha, luta, oração, comunhão, solidariedade, construção, amizade, memória, são as palavras-chaves desta Romaria e que ficou comigo.

Eu amo este país, eu amo o espírito de construção e “luta” que faz parte das Comunidades Eclesiais de Base, que apesar de enfraquecido, existem e continuam. Acredito que a Teologia da Libertação não é algo que diz respeito ao passado, ainda existe, existe! Existe na causa indígena, está na luta pela defesa da Terra e da Natureza, está na luta pelos direitos humanos, na luta em defesa das mulheres e contra uma cultura machista, no interior das prisões e nos presos, na luta contra o racismo, contra o preconceito, contra uma cultura que separa e não recebe, na causa dos migrantes, numa igreja caminhando com pessoas que conhecem a Terra e não permanecem fechadas em palácios luxuosos, está em uma Igreja que caminha descalça, capaz de tirar os sapatos e sentir a vida na pele nua.

Eu vou ser romântica, eu vou ser nostálgica, mas também realista e capaz de manter o entusiasmo, coragem e a vontade de acreditar, mais uma vez, que um outro mundo é possível (considerando-se o aniversário dos dias do G8 em Gênova) e que nós, somente nós podemos construí-lo, com o nosso trabalho, nossas escolhas, nossas lutas, os nossos testemunhos, fiéis ao amor que move tudo e tudo edifica. Vidas pela Vida, Vidas pelo Reino.

LMC Brasil

Emma Chiolini, LMC