Leigos Missionários Combonianos

[Moçambique] Encontro da Equipa Missionária de Carapira

Na tarde do dia 28 de Abril aconteceu o encontro da equipa missionária de Carapira, com a participação dos missionários combonianos, das missionárias combonianas e dos LMC. O encontro tinha como tema o VER, a partir da reflexão da carta do Geral dos mccj sobre os 150 anos do Plano de Comboni, e teve como linha orientadora da reflexão a questão: “Qual é a realidade concreta que nos está a desafiar como uma oportunidade missionária hoje e com quais conexões universais?”. A tarde iniciou com a adoração do santíssimo, seguida dos encaminhamentos para os trabalhos em três grupos temáticos, sendo 1) saúde e mulher; 2) educação e paróquias; e 3) justiça e paz, questão de terras e trabalho. Cada grupo listou os diferentes pontos que via em cada assunto a partir da perspectiva da questão colocada acima e depois, num plenário geral, todos partilhamos os resultados dos trabalhos. Elaborou-se assim um resumo que servirá de subsídio para a preparação do próximo encontro da equipa que tratará o JULGAR. Encerrou-se a noite com um jantar em família comboniana, com um prato mexicano, “Posole”, preparado pela leiga Beatriz.

A visão eclesial que emerge do “Plano” de Comboni

Comboni

“Comboni – acreditando na unidade do género humano e no facto de o Evangelho dever, por isso, ser anunciado a todos – coloca-se numa atitude de desmistificação profética daquela forma cultural racista…” (Prof. Fulvio De Giorgi, Conselho de Direcção do Arquivo Comboniano).

Colocação de contexto
Uma reflexão actual sobre o “Plano” de Comboni que não seja puramente histórica, mas seja de tipo espiritual, pastoral, missiológico (que assuma um ponto de vista de fé, de pertença à Igreja católica e de ‘filiação’ comboniana) deve, de algum modo, partir de algumas colocações de contexto e não situar-se num plano de leitura directa e imediata (ou seja, sem mediações), como se se tratasse de um texto escrito hoje. A actualização deve fugir aos riscos de um certo ingénuo fundamentalismo actualizante: que seria, no melhor dos casos, uma banalização, mas correria também riscos de deformação grave. Qualquer texto do tempo (não só de Comboni) não pode ser lido sem filtros de contexto: caso contrário quem naquele contexto histórico, era – por exemplo – anti-racista, arriscar-se-ia a parecer, hoje, racista.

Não se trata somente de traduzir uma linguagem oitocentista numa linguagem corrente (com uma operação que não é unicamente de semântica histórica): embora já este simples aspecto assinale um problema mais vasto, isto é, o das formas de continuidade/descontinuidade cultural
(e espiritual) entre nós e os nossos Pais e as nossas Mães do passado, entre a nossa visão e a sua visão.

Comboni situava-se no seio da Igreja católica: mas também nós hoje.
E todavia a Igreja católica é um organismo vivo que cresce: por isso ‘cresceu’ relativamente ao século xix. Neste crescimento está compreendido também a auto-consciência: a própria visão eclesial. Eis então que não podemos reconhecer-nos ‘perfeitamente’ nas vestes daquele século: caso contrário quereria dizer que tudo é estático, que o cristianismo não é vivo mas morto, que o nosso dever não seria histórico mas arqueológico…

Actualidade e profecia

Afinal é bem evidente que o paradigma eclesiológico de Comboni, a sua visão eclesial, era o do Vaticano I e não do Vaticano II e que a sua cultura, em cujo seio se definiam muitos aspectos da mesma visão eclesial, era a lombardo-veneta do século xix e não a do século xxi. Mas, então, que significa esta observação (óbvia) no plano da nossa leitura? Quais são enfim os traços de continuidade e de actualidade e de profecia e quais os de descontinuidade, nos quais houve uma superação (isto é, um crescimento)?

Quanto mais os elementos culturais de Comboni se aproximam do Evangelho mais continuidade existe: a Igreja anuncia o Evangelho de Cristo como uma proposta de aliança libertadora dirigida por Deus a todo o género humano (o que, e não era óbvio então como não é óbvio hoje, implica a unidade do género humano: há um só género humano e todos os homens e todas as mulheres são filhos e filhas de Deus, iguais em dignidade pessoal). Assim, se em meados do século xix se formava, no coração da Europa, uma forma cultural nova que era o racismo, Comboni era alheio e hostil relativamente a estes processos culturais. O racismo implica dois pontos essenciais, como forma cultural: 1. Existem raças humanas (em geral reduzidas a três); 2. Há raças inferiores e raças superiores. Comboni – acreditando na unidade do género humano e no facto de o Evangelho dever, por isso, ser anunciado a todos – coloca-se numa atitude de desmistificação profética daquela forma cultural racista. Sobre isto, portanto, não só há continuidade, mas há uma permanente actualidade de tal aproximação, visto que em forma explícita ou mais frequentemente dissimulada permanecem, ainda hoje, visões racistas, que podem insinuar-se até na visão eclesial.

Descontinuidade como crescimento
Elementos culturais de descontinuidade são os que, pelo contrário, estão mais ligados às especificidades de mentalidade e de pensamento do tempo: uma ignorância ‘geográfica’, etnográfica, cultural dos Europeus em relação ainda a muitas partes do planeta e a largas camadas da humanidade; uma presença – portanto – de fantasias míticas e de lugares comuns tradicionais (mesmo religiosos: como a chamada ‘maldição de Cam’) que colmatavam estes vazios cognitivos e que hoje podem parecer ‘preconceitos racistas’ (pré-conceitos, sim, como todos nós temos; racistas não, porque não participavam – como já disse – nos aspectos específicos daquela forma cultural).

Compreender esta diferença é, no plano metodológico, essencial para enquadrar a reflexão sobre o “Plano” de Comboni, na sua visão eclesial e na sua actualidade profética.

Unidade, utilidade e simplicidade
Se de facto partimos de uma óptica racista, então consideramos a civilização europeia como superior e por isso destinada a dominar sobre as outras: condenando-as a um desenvolvimento ‘separado’ (apartheid) ou ‘civilizando’ do alto e do exterior alguns dos seus aspectos, para melhor as dominar e explorar, em prol do maior desenvolvimento da Civilização considerada superior. Comboni no “Plano” assumia pelo contrário um paradigma oposto: o da unidade do género humano. Neste quadro, é possível que alguns povos (historicamente foram os europeus, mas podiam ser outros) cheguem primeiro, por casualidades históricas, a conquistas consideradas positivas (por exemplo a escrita, a alfabetização, a medicina, a ciência e a técnica): estas conquistas então devem ser dadas a conhecer a todos, devem ser partilhadas, postas à disposição para ‘regenerar’ toda a humanidade, para melhorar a sua existência real, diminuindo todas as formas de sofrimento, de pobreza, de injustiça, a favor da utilidade comum. Mas esta ‘civilização’ (isto é, partilha de conquistas de civilização) não deve ser imposta do alto e do exterior: se assim fosse, mesmo com as melhores intenções, introduzir-se-ia uma assimetria e por isso um possível desequilíbrio e domínio. A civilização/partilha deve ser proposta e realizada de baixo e do interior, com um protagonismo em primeira pessoa dos beneficiados, sem astúcias ou mediações complexas, mas na simplicidade: só assim é re-generadora (isto é, intrinsecamente emancipadora). Os êxitos serão, então, sempre geradores e engendradores, isto é criativos e inovadores, autóctones e originais, não extrinsecamente semelhantes (isto é, assemelhados) aos europeus, mas também não hostis a eles: porque fruto de um encontro fraterno, em que se procura o bem de todos, e não de um encontro desequilibrado (isto é, na realidade, de um desencontro de culturas), em que se procura o bem só de uma parte (a mais forte).

Os pressupostos, portanto, da visão eclesial de Comboni no “Plano” podem-se resumir nestas suas palavras-símbolo, ainda actualíssimas: unidade, utilidade, simplicidade.

A aproximação do Plano
Tal aproximação do “Plano” é de facto muito actual hoje, num mundo globalizado e interdependente (muito mais do quanto o fosse no século xix), porque indica a única via possível para o desenvolvimento unitário mas não uniforme do género humano, num plano de não-violência e de partilha sempre respeitadora do outro. A aproximação do “Plano” desmistifica duas perspectivas que constituem, hoje, os dois riscos maiores de desumanização: por um lado, dinâmicas de desenvolvimento desigual, com lógicas (como as do neo-liberalismo) que tendem a aumentar o corte da riqueza, com fechamentos comunitaristas e xenófobos, com a recusa da igualdade em direitos e em dignidade pessoal; por outro, uma ocidentalização cultural feroz, como massiva esfoliação de toda a cultura local, como homologação universal, como mcdonaldização do mundo.

Esta aproximação do “Plano”, que surge em sintonia profética com o ensino da Igreja (basta pensar nas actuais orientações do Papa Francisco), apesar de ter sido formulado num período em que a própria expressão de “doutrina social da Igreja” ainda não existia, era, para Comboni, consequência de uma visão eclesial que se devia radicar no Evangelho de libertação de Jesus de Nazaré. Ao Evangelho deve ser, ainda hoje, sempre referido, para melhor compreendê-lo e actualizá-lo em fidelidade ao carisma: este é um critério hermenêutico essencial na leitura hodierna do “Plano”.

Por conseguinte, alguns traços essenciais da visão eclesiológica do “Plano” (que, na época, não eram de modo nenhum nem maioritários nem descontados, embora pudessem ligar-se a uma tradição significativa de Propaganda Fide) mostram-se proféticos e, ainda hoje, portadores de renovação evangélica: a Implantatio Ecclesiae como fundação de autênticas Igrejas locais, com um clero indígena; a paridade de género, em todos os âmbitos significativos, especialmente espiritual e de vida cristã; a importância – ad intra e ad extra – do laicado católico.

Um discurso amplo, de fecundo e rico de possíveis novos desenvolvimentos – mas que me limito, nesta sede, apenas a indicar – é por fim o da implantação pedagógica do “Plano” que, com originalidade, combina elementos diversos: o alcance emancipador da instrução para todos; a educação como caridade intelectual; a pedagogia dos oprimidos.

Visão eclesial harmonicamente unitária
Precisamente tal implantação pedagógica permite uma visão eclesial harmonicamente unitária – porque unitariamente fundada na “instrução” (que significa formação da consciência) – de evangelização e promoção humana: “A instrução que deverá dar-se a todos os indivíduos de ambos os sexos pertencentes aos Institutos que circundariam a África, será de infundir-lhes na alma e aí radicar o espírito de Jesus Cristo, a integridade dos costumes, a firmeza da Fé, as máximas da moral cristã, a conhecimento do catecismo católico, e os primeiros rudimentos do saber humano de primeira necessidade”.
Prof. Fulvio De Giorgi
(Conselho de Direcção do Arquivo Comboniano)

[Moçambique] Formação de monitores para alfabetização e educação de adultos

Nos dias 24 a 26 de Abril, no centro pastoral de Mutoro, teve lugar a formação de alfabetizadores. Nesta formação participaram 33 monitores vindos de várias zonas da paróquia de Carapira, tendo como orador principal o professor doutor Adelino Zacarias Ivala. Decorreu num ambiente favorável, havendo boa colaboração entre o formador e os formandos. Participaram também os três leigos missionários combonianos da comunidade de Carapira e a irmã Paula, missionária comboniana. Dentre os 33 participantes estavam três LMC moçambicanos em formação. Agradecemos por ter participado desta formação que vai nos ajudar no enriquecimento da nossa formação missionária. Que Deus nos abençoe na nossa caminhada!

Ancha, Margarida e Zeferino, LMCs em formação.

[Moçambique] Encontro de jovens da paróquia de Mossuril

O encontro teve lugar na localidade de Namitatar, comunidade de São João Baptista, onde estiveram 130 participantes entre jovens e adolescentes vindos de várias zonas da Paróquia de Mossuril, motivados pela celebração do “Dia Mundial da Juventude”, o qual foi programado para dois dias com as seguintes actividades: no sábado, acolhimento, jogos, dinámica de integração, oração da Via Sacra e filme. E no Domingo, reflexão sobre temas como recenseamento e lei de terras com os jovens, e sobre a fase da adolescencia com os adolescentes. Depois, animação, culminando com a celebração de Domingo de Ramos, onde os jovens proclamaram com cantos e danças que Jesus é Rei do Universo. No Sábado o grupo de LMC de Moçambique organizou a procissão da Via Sacra, onde os jovens participaram, cada qual levando consigo uma cruz para sua reflexão na sua vida, na comunidade e na sua familia. No Domingo partilhamos juntos na celebração de Domingo de Ramos, tivemos um momento da animação missionária onde convidamos as pessoas que se sentirem chamadas neste estilo de vida que respondam se aproximando do nosso responsável, o P. Paulo, pároco desta mesma Paróquia.

Terminando, gostei tanto de participar neste encontro e espero continue mais vezes para me preparar na minha missão e que Deus abençoe os jovens de Mossuril.

Ancha Luís, formanda LMC Moçambique

Missão, Morte e Ressurreição

“A missão permite-nos compreender a ressurreição como o milagre da vida que não se deixa destruir pelo egoísmo e pela ambição sem limites, mas que se impõem como alegria que surge do coração de Deus que nós trazemos na fragilidade do nosso ser humano. Por isso, não há missão verdadeira que não implique morte na nossa vida, morte não como sinónimo de destruição, mas morte que se transforma em oportunidade para renascer, finalmente, para a vida verdadeira que só o Senhor nos pode oferecer como presente do Pai”.

Com estas palavras termina a mensagem de Páscoa enviada pelo P. Enrique Sánchez G., superior geral, a todos os confrades combonianos.

Abaixo publicamos a mensagem.

Feliz Páscoa para todos.

Jesus

MISSÃO, MORTE E RESSURREIÇÃO

«As grandes obras de Deus só nascem ao pé do Calvário»

(Escritos 2325)

A celebração da Páscoa, mistério por excelência, que nos faz entrar na morte que marca a nossa humanidade e na vida sem limites, dom de Deus, que na ressurreição do Senhor Jesus nos faz viver no tempo da esperança e da fé.

Como podemos viver este mistério de modo que seja fonte de vida neste tempo de contrastes, tempo em que a aridez das nossas fragilidades se confronta com o convite a viver a alegria do Evangelho redescobrindo a presença sempre nova do Senhor que, do fundo do túmulo vazio, nos recorda que está vivo entre nós?

Vida e morte, passado e futuro, dor e alegria, trevas e luz, guerra e paz, ódio e amor. Além destes, quantos binómios mais marcam a nossa existência, o nosso peregrinar humano pelos caminhos divinos que nos conduzem à eternidade que não conseguiremos definir e muito menos pronunciar, com as palavras pobres do nosso atuar quotidiano?

Submergidos na corrida frenética dos nossos empreendimentos e dos nossos esforços para mudar o mundo, cada um passa a caminhada inteira com a sua visão, os seus interesses, as suas ideias e os seus programas, pretendendo ter toda a verdade, saber e poder; até mais que os outros.

Vivemos com uma arrogância convertida em doença contagiosa, que não distingue entre pobres e ricos, pequenos e grandes, todos nos sentimos com o direito de criticar, de assinalar os limites, os defeitos, e os pecados dos outros. Os critérios da desconfiança, da suspeição, da superioridade, e da competição tentam impor-se e a confiança, a partilha, o apoio, a misericórdia e o perdão soam como música que irrita o ouvido e não penetra o coração.

Não é este por ventura o cenário em que nos calha viver a missão como uma proposta sempre antiga e sempre nova que impede perder-se na visão trágica, pessimista e deprimente do hoje da nossa história? Não é esta a missão vivida no silêncio, no escondimento, e no anonimato que nos faz ser «pedras escondidas» que falam de uma vida que não faz barulho, que não necessita de publicidade? Não é esta a missão que nos faz viver a partir de dentro o mistério que se converte em vida?

Morte que não tem a última palavra

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Hoje, mais do que nunca, enfrentamos situações que vão para lá do imaginável. As notícias transformam-se em crónicas de desgraças de todas as cores.

A violência e a guerra destroem populações inteiras e condenam milhões de pessoas a fugir não se sabe até onde, como refugiados, prófugos, migrantes ou prisioneiros em seus próprios países. Estas imagens transformaram-se em coreografia de capítulos televisivos que fazem dos dramas humanos episódios de um filme que se desenrola na realidade, mas se apresenta para nós como se fosse uma obra que ganhou um óscar.

Graças a Deus que a missão nos permite narrar a história de outra maneira: é impossível calar o testemunho de todos os que viram a destruição e a morte, não através do ecrã mas no rosto e nos corpos de irmãos e irmãs com quem se trabalhava, se celebrava a eucaristia, se estudava nas escolas pequenas de tetos de palha e se festejava a vida e a alegria de estar neste mundo.

Já não vemos mais a morte de Cristo sobre a cruz de madeira. Descobrimos como missionários, com os olhos e a dor do coração de tantos irmãos nossos, que o Senhor sobe à cruz da indiferença dos poderosos dos nossos dias, do esquecimento dos pobres, da exaltação do poder e da idolatria do dinheiro.

As revoltas, os protestos, e as contestações recolhem o grito desesperado de tantos irmãos e irmãs que não conseguem ir para a frente, que não sabem como fazer para sobreviver numa realidade que parece negar as condições mínimas necessárias para chamar vida à existência.

A grande tentação é cair na armadilha de pensar que a sombra da morte tomou posse do nosso tempo e que se impôs como critério para governar a nossa história. Mas quantas outras mortes descobrimos mais próximas de nós? Por acaso, não é morte a destruição das missões onde estamos presentes no Sudão do Sul ou a violência interminável na República Centro-Africana onde há ainda tantas pessoas obrigadas a abandonar as suas casas por medo de serem assassinadas?

Não será a morte, a diminuição do número de missionários do nosso Instituto? Ou ter que renunciar a certas presenças missionárias que vemos, claramente, que ainda podiam fazer tanto bem? E não será certo que vivemos como um verdadeiro funeral o facto de ter que fechar comunidades, porque não temos ninguém para enviar?

Não nos sentimos morrer quando nos negam a autorização para entrar em determinado país ou se nos nega a possibilidade de continuar o nosso serviço aos pobres e à Igreja local, só porque os políticos de turno vivem de ideologia? Não é morte a mediocridade que nos ameaça cada vez que tentamos organizar a nossa vida segundo os nossos interesses pessoais, quando procuramos pretextos para justificar a nossa falta de disponibilidade para sair, para obedecer, e para aceitar a missão como um dom que devia ser acolhido sem se por condições?

A missão introduz-nos e acompanha-nos no mistério da morte, porque quando é vivida com honestidade total, não podemos dizer outra coisa que aquilo que o Senhor bradou do profundo do seu espírito: Pai, faça-se a tua vontade.

São Daniel Comboni disse-o com palavras que descrevem o cenário contemplado no coração da África: «Perante tantas aflições, entre montanhas de cruzes e de dor … o coração do missionário católico ressentiu-se por estas enormes complicações. Contudo, ele não deve perder o ânimo por isso: a força, a coragem, a esperança nunca podem abandoná-lo» (E 5646).

catedral_064A missão introduz-nos no mistério e na beleza da ressurreição

Há um mais além da morte que para a missão é fundamento de tudo, a garantia de um futuro que se constrói não na base dos nossos recursos, capacidades ou forças.

A missão permite-nos tocar com a mão e contemplar com os nossos olhos aquele projecto sempre actual de Deus que não descansa, tratando de construir uma humanidade em que todos se possam descobrir como irmãos e irmãs.

Deus está sempre em acção e, apesar de irmos por outros caminhos que não nos conduzem à vida, Ele não renuncia ao seu sonho de ver um dia a todos os seus filhos e filhas reunidos numa só família, onde não seja mais necessário colocar etiquetas de religiões, ideologias, preferências políticas, raças, culturas ou cores. Cristo ressuscitado recorda-nos que para Deus o tempo já chegou, mas Ele não tem pressa, estará sempre disposto a esperar pelo nosso regresso, desejando que, neste tempo de espera, não haja vidas sacrificadas por causa da nossa incapacidade de raciocinar menos com a cabeça e mais com o coração.

A missão permite-nos compreender a ressurreição como o milagre da vida que não se deixa destruir pelo egoísmo e pela ambição sem limites, mas que se impõem como alegria que surge do coração de Deus que nós trazemos na fragilidade do nosso ser humano.

Por isso, não há missão verdadeira que não implique morte na nossa vida, morte não como sinónimo de destruição, mas morte que se transforma em oportunidade para renascer, finalmente, para a vida verdadeira que só o Senhor nos pode oferecer como presente do Pai.

«Ele levou os nossos pecados no seu corpo, para que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas suas chagas fostes curados» (1 Pe 2:24).

Para todos uma Feliz Páscoa.

P. Enrique Sánchez G., mccj Superior Geral